O imortal Hamlet

Global: Shakespeare’s Globe traz ao Sesc Palladium turnê mundial de “Hamlet”

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

Elenco: o nigeriano Ladi Emeruwa (esq.) e o inglês de origem paquistanesa Naeem Hayat se alternam no papel de Hamlet
BRONWEN SHARP/DIVULGAÇÃO
Elenco: o nigeriano Ladi Emeruwa (esq.) e o inglês de origem paquistanesa Naeem Hayat se alternam no papel de Hamlet

Talvez “ser ou não ser, eis a questão”, a primeira cena do terceiro ato de “Hamlet”, seja a frase mais célebre da dramaturgia mundial. Seu autor, William Shakespeare, o dramaturgo mais conhecido e reeditado do mundo, agora está prestes a superar seus próprios recordes. O Globe Theatre, companhia sediada no teatro de Shakespeare, em Londres, está desde abril em turnê com uma versão de “Hamlet” programada para durar dois anos, passando por todos os 205 países do mundo. É a maior itinerância já feita por um grupo de teatro e a ambição se deve à comemoração dos 450 anos de nascimento e 400 de morte do bardo inglês – em 23 de abril de 1564 e 23 de abril de 1616, respectivamente. Tudo a ver com Shakespeare, que tem entre suas máximas a afirmação de que “o mundo inteiro é um palco”. Pela primeira vez no Brasil, o Globe Theatre, que já passou por São Paulo e Rio de Janeiro, chega a Belo Horizonte para apresentações na quarta (3) e quinta (4), no Sesc Palladium. Até chegar à capital mineira, o Globe Theatre terá percorrido incríveis 82.810 quilômetros. Isso porque eles só terão completado 1/3 da jornada. “São tantos (pontos altos na viagem)! Já foram 62 países até agora. Tem sido inacreditável. É um privilégio sem precedentes poder atuar em algumas das casas mais icônicas de cada país, para centenas e milhares de pessoas – algumas das quais este foi o primeiro contato com Shakespeare. Ver a alegria que trazemos a eles em suas cidades me faz também extremamente feliz e orgulhoso de ser parte dessa aventura louca”, conta o nigeriano Ladi Emeruwa, um dos dois atores que protagonizam o clássico</CW>. Ele e o londrino Naeem Hayat dividem o papel de Hamlet e outros dez atores, de diversas nacionalidades, se revezam entre todos os demais personagens – numa mesma noite, cada um deles pode acabar dando vida a três pessoas diferentes. A ideia é que todos possuam domínio sobre a peça, de modo que ela soe mais viva quanto possível. De um processo complexo e apressadíssimo – uma vez que a fase de ensaios só durou seis semanas –, surgiu a adaptação que o inglês Dominic Dromgoole dirige. Não por acaso, a arte final mais se parece um rascunho, já que a simplicidade é a toada do espetáculo e a marca do Globe Theatre. “Acho que é uma das mais honestas versões de ‘Hamlet’ que eu já vi. Essa montagem não tenta esconder as nuances do texto. Em vez de ressaltar ou talvez exagerar um tom, o espetáculo é extremamente cru, ‘nos ossos’, e realmente aprecia a verdade das palavras. É, ainda, uma peça bem mais engraçada do que eu fui obrigado a acreditar pelas outras produções que acompanhei. É muito mais clara e acessível, o que resume a assinatura de estilo do Globe Theatre”, explica Ladi, que cita o cenário pouco desenvolvido – formado por malas e contêineres – para não esconder os conflitos da trama atrás de efeitos especiais. “Nós conversamos diretamente com o público, reconhecendo a existência deles. Muitos dos atores criam os efeitos sonoros e tocam música no palco como parte da peça, inclusive”. Acessível O desejo de que a linguagem do bardo fosse de fácil identificação para todos os povos do mundo pode até parecer audacioso, mas é totalmente plausível, segundo Ladi. O humor foi a via encontrada para tal proeza, mas a mensagem de Shakespeare, sobretudo, é quem faz com que as duas horas e 40 minutos de espetáculo voem. “Já aprendi, nessa turnê, que os dilemas humanos são realmente universais e que as pessoas se relacionam com aquilo, seja aquelas que já viram ‘Hamlet’ cem vezes ou aquelas que não viram nenhuma. A peça é sobre a condição humana no sentido mais amplo do termo. Tudo que nós, como seres humanos, já contemplamos sobre a vida e a morte é articulado no texto do jeito mais bonito possível. Essas questões sobre vida e morte são eternas”, explica Ladi sobre a importância de revisitar o texto de mais de 400 anos. “‘Hamlet’ é também sobre a vida doméstica e política, englobando vários temas que ainda existem na sociedade moderna: o que é ser um homem, os relacionamentos entre mãe/filho/pai/filha, vingança – é uma lista infinita. Então, o maravilhoso dessa peça que levamos agora pelo mundo é a universalidade desses temas e, ao mesmo tempo, como eles são absorvidos de maneiras tão diferentes. É incrível conversar com as pessoas de todas os cantos do mundo e perceber a parte que mais toca cada uma delas”, diz o ator. Barbara Heliodora, crítica de teatro, reconhecida como uma das maiores autoridades em Shakespeare no país, assina a tradução para o português que é projetada num telão. Hamlet Com Shakespeare’s Globe Dir. Dominic Dromgoole e Bill Buckhurst Sesc Palladium (r. Rio de Janeiro, 1.046, centro, 3270-8100). Quarta (3) e quinta (4), às 20h. R$ 60 (plateia 1, inteira), R$ 50 (plateia 2 e 3, inteira).

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