O olhar periférico ganha o centro da tela

Premiados em Brasília e Tiradentes, “Ela Volta na Quinta” e “A Vizinhança do Tigre” fazem retratos diversos da periferia

iG Minas Gerais | daniel oliveira |


“A Vizinhança do Tigre” ganhou troféu Barroco de melhor filme em Tiradentes
Forumdoc
“A Vizinhança do Tigre” ganhou troféu Barroco de melhor filme em Tiradentes

Uma das primeiras, e mais repetidas, lições que se aprende em aulas de roteiro é “escreva o que você conhece”. E os dois filmes mineiros que são destaque do Forumdoc neste fim de semana mostram que isso não significa simplesmente construir um retrato do universo ao seu redor – implica, principalmente, ter um ponto de vista sobre esse universo, realizando um retrato interior dele.

Exibido hoje às 21h, “Ela Volta na Quinta” é a estreia em longa-metragem de André Novais. O cineasta usa sua família como elenco para acompanhar três relacionamentos: os pais como um casal enfrentando uma possível traição, o irmão considerando o casamento com a noiva, e ele mesmo e a namorada discutindo a ideia de morarem juntos.

Também em seu primeiro longa, Affonso Uchoa segue o cotidiano de cinco jovens amigos no bairro Nacional em “A Vizinhança do Tigre”, exibido amanhã às 19h.

É fácil traçar paralelos entre os dois trabalhos. Ambos são filmes realizados em Contagem, com elencos não-profissionais interpretando versões ficcionalizadas de seu cotidiano na periferia. E de certa forma, os dois longas acompanham personagens buscando sair da periferia de suas vidas – assumir-se como protagonistas no centro de suas histórias, tomando decisões que vão mudar suas trajetórias – sem que isso implique necessariamente sair da periferia geográfica em que se encontram.

Mas as semelhanças param por aí. Novais tem um certo olhar cassavetiano, calcado nos diálogos e focado nos relacionamentos, que servem como ponto de entrada para o seu olhar naquele universo. Já o filme de Uchoa lembra mais um jovem Scorsese, de “Caminhos Perigosos”, mais interessado em observar como cada personagem responde de maneira própria às violências e violações impostas pelo cotidiano – materializadas numa fotografia, trilha e montagem mais cadenciadas. São duas abordagens diversas e igualmente instigantes, que deixam a curiosidade pelos próximos passos de seus realizadores.

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