Como compreender este perverso processo criminoso, a corrupção

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DUKE
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Pelas mídias sociais, fui atacado ferozmente por ter apoiado o projeto político do PT e da presidente Dilma Rousseff, sempre com o mesmo argumento: “Por que não reconhece e escreve contra a corrupção?”

Segundo a Transparência Internacional, o Brasil é um dos países mais corruptos do mundo. Em 91 analisados, ocupa o 69º lugar. Só esse dado denuncia a gravidade do crime contra a sociedade que a corrupção representa. Todos os dias, mais e mais fatos são denunciados, como agora com a corrupção na Petrobras. Como compreender esse perverso processo criminoso? Comecemos com a palavra “corrupção”. Ela tem origem na teologia. Antes de se falar em pecado original, a tradição cristã dizia que o ser humano vive numa situação de corrupção. Santo Agostinho explica a etimologia: corrupção é ter um coração (cor) rompido (ruptus). Em outras palavras: há uma força em nós que nos incita aos desvios, e a corrupção é um deles. Como se explica a corrupção no Brasil? Identifico três razões básicas entre outras: a histórica, a política e a cultural. A histórica: somos herdeiros de uma perversa herança colonial e escravocrata que marcou nossos hábitos. A colonização e a escravatura são instituições objetivamente violentas e injustas. Então, as pessoas, para sobreviver e resguardar um mínimo de liberdade, eram levadas a corromper. Essa prática deu origem ao jeitinho brasileiro. A política: a base da corrupção política reside no patrimonialismo e no capitalismo sem regras. No patrimonialismo, não se distingue a esfera pública da privada. Os que estão no poder tratam a coisa pública como se fosse sua. Devemos dizer que o capitalismo aqui e no mundo é, em sua lógica, corrupto, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, criando riqueza com a exploração do trabalhador e com a devastação da natureza. Gera desigualdades sociais que, eticamente, são injustiças, o que origina permanentes conflitos de classes. Cultural: a cultura dita regras socialmente reconhecidas. Os corruptos são vistos como espertos, e não como os criminosos que de fato são. Via de regra, podemos dizer: quanto mais desigual e injusta é uma sociedade, mais se cria um caldo cultural que permite e tolera a corrupção. Especialmente nos portadores de poder se manifesta a tendência à corrupção. Bem dizia o católico lorde Acton (1843-1902): “O poder tem a tendência a se corromper, e o absoluto poder corrompe absolutamente”. E acrescentava: “Meu dogma é a maldade dos homens portadores de autoridade; são os que mais se corrompem”. Por que isso? Hobbes, no seu “Leviatã” (1651), nos acena uma resposta plausível: “A razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando ainda mais poder”. Lamentavelmente, foi o que ocorreu com setores do PT e seus aliados. Levantaram a bandeira da ética e das transformações sociais, mas preferiram o caminho curto das alianças e dos acordos com o corrupto poder dominante. Garantiram a governabilidade ao preço de mercantilizar as relações políticas e abandonar a bandeira da ética. Como combater a corrupção? Pela transparência total, pelo aumento de auditores confiáveis que atacam antecipadamente a corrupção. Como nos informa o World Economic Forum, a Dinamarca e a Holanda possuem cem auditores por 100 mil habitantes; o Brasil tem apenas 12,8 mil, quando precisaríamos pelo menos de 160 mil. Precisamos lutar por uma democracia mais participativa, que se faça vigilante e cobre inteireza ética de seus representantes.

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