Orgulho pelas ruas

iG Minas Gerais |

Luiza sorriu para Carlos, que buzinou para Adriana, que acenou para Inês, que pendurou a bandeira na janela e gritou para João, que passou a pé pela rua devidamente trajado de preto e branco. Não se conhecem, mas, na última quinta-feira, pareciam amigos íntimos. Eles e milhares de outros tantos apaixonados. Todos eram cúmplices, companheiros, colegas, irmãos. Todos, atleticanos. Belo Horizonte estava em festa. Vibrante. E com todo direito. A Copa do Brasil foi o fim do jejum de títulos nacionais após 43 anos. E, se isso ainda acontece em cima do seu maior rival, o Cruzeiro, não há como segurar a explosão de alegria. O peso, no coração, é tão grande quanto o de uma Libertadores. Sem contar os antigos carrascos que ficaram pelo caminho... Palmeiras, Corinthians e Flamengo. Um campeonato épico cheio de drama e doses peculiares de sofrimento, o que nunca falta para quem escolheu ser atleticano. Foi a vitória de um time reconstruído, que, agora, aprendeu a vencer. Fica para trás a fama de azarado. A Massa segue cheia de esperança, ou melhor, com a certeza de novas vitórias. É sempre assim onde não falta fé. O dia seguinte ao título também foi momento de provocações. De implicância em redes sociais, nas rodas do trabalho e até dentro das famílias. Torcedor é assim... não perde a vez, a oportunidade. Chega a ser sem limite. Passional. Incoerente. Dono das suas próprias razões, o que vale para ele não se aplica ao outro. Quer esfregar na cara do rival sua conquista. Não importa quanto ela valha. Para ele, vale tudo. A maioria nunca vai perceber que, além do embate, cruzeirenses e atleticanos juntos se mostraram ao país. Estão sob os holofotes de um povo louco por futebol. Deram o grito, tomaram seus lugares. Cada qual da sua maneira. Seja pela regularidade, seja pela imprevisibilidade. Os azuis colecionam mais títulos, é fato. E, de forma incontestável, paparam mais um Brasileirão. Ainda estão comemorando. Têm razão para isso. As bandeiras não foram tiradas das janelas, do alto dos prédios. Figuram por lá ao lado do símbolo atleticano. Vão ter que conviver por um bom tempo ali, lado a lado. Certo é que fizemos história, marcamos um tempo. Atlético e Cruzeiro colocaram Minas no topo do país, nas manchetes dos jornais internacionais. E merecem, sim, a glória. Falta agora valorizar quem mais dá valor os times mineiros: suas torcidas. Os mineiros foram menosprezados. Ingressos a R$ 200, R$ 500 e R$ 700 excluem. Prova disso foi o que se viu no jogo da final, com mando cruzeirense, no Mineirão: um público acanhado para o tamanho do clássico: 39.786 pessoas onde podiam estar pouco mais de 60 mil. Uma festa com menos brilho do que deveria ser. Ainda assim seguimos, todos, apaixonados. A maioria, do lado de fora do Gigante da Pampulha ou longe do Horto. Agarrado à televisão ou pendurado no bom e velho radinho de pilha. Confesso, mais uma vez, que a coluna seria outra. E, como no jogo contra o Flamengo, foi preterida após a conquista atleticana. Desculpem-me os cruzeirenses ou os que não se interessam por futebol. Foi inevitável. Hoje, de alguma forma, era preciso compartilhar a cumplicidade vivida nas ruas. Sei que esses momentos são únicos, especiais. Não é todo dia que as pessoas se olham com tanta paixão e se sentem tão irmãs. Não é todo dia que se é dono do Brasil.

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