O país vai mal das pernas e está prestes a ficar mal do corpo

iG Minas Gerais |

DUKE
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Ouvi, ainda criança, a mesma queixa a que se refere o antropólogo Roberto DaMatta, em seu artigo da semana passada, “Vou mal das pernas”, em “O Globo”. Ouvi-a de um “tio torto” (casado com uma tia). Não me lembro de tê-la ouvido do meu pai, que faleceu aos 94 anos. Meu pai não sofreu do mal das pernas, embora tenha se queixado, certa vez, de cruel erisipela. Além de apegado aos livros e, obviamente, à leitura, foi também um ginasta. Naquela época, não havia academia. Usava-se o banheiro mesmo, exageradamente espaçoso. O mal das pernas a que se referiu DaMatta é diferente e ataca bem menos hoje do que ontem. Atualmente, os velhos (entre os quais, contrariado, me incluo), além, claro, dos jovens, se dedicam mais a cuidar do físico. Fazem musculação. Não é por nada que as academias de ginástica se tornaram um bom negócio e se multiplicam como chuchu na cerca. Antes, já viera a corrida em velocidade condizente com a idade. Inventou-a Kenneth H. Cooper, autor do livro “Aerobics”. São dele o teste de Cooper e a ginástica aeróbica, que se tornou mania no país. Roberto DaMatta, por volta dos seus 14 ou 15 anos, ouviu a queixa do seu avô Raul, um desembargador aposentado pelo Amazonas e que enviuvou duas vezes. E, como bom filósofo que também é, concluiu que, “quando as pernas vão mal, o corpo – que, na verdade, corresponde ao físico todo da pessoa – fica, igualmente, em péssimo estado. Afinal, esse corpo é tocado pelas pernas”, advertiu. DaMatta, que não sei se também pratica esporte, passou por experiência semelhante à do avô Raul: num tombo, rompeu o músculo da coxa direita, que o levou a usar muletas. A queda o tornou dependente de outros para coisas triviais: “O trivial é aquilo que fazemos sem pensar, e fazer sem sentir é ser dono de si mesmo, algo raro neste cada dia mais imponente vale de lágrimas, no qual estamos com corpo e alma e, mais que isso, em corpo e espírito”, disse, coberto de razão. O centro da narrativa de DaMatta é bastante simples: a contusão de que foi vítima o impedia de se ajoelhar. “Se a pessoa não cai de joelhos, não anda de joelhos e não sabe se ajoelhar, ela não se entende e não consegue ouvir e falar com o outro. E não vendo o outro, ela fica invisível, pois sem o outro nada somos”, arrematou ele. É esse mal das pernas, leitor, que está tomando conta do país. Depois da roubalheira na Petrobras (e será só nela?), ninguém se lembra, e antes que seja tarde, de pedir perdão às verdadeiras vítimas. Como diz DaMatta, não vale só dizer que “vai apurar” ou “cortar na carne”. É preciso “ajoelhar para reconhecer que estamos péssimos das pernas e fazer alguma coisa para sairmos da cadeira de rodas”. Em suma: os culpados, genuflexos, devem pedir perdão ao país, presidente, mas com a senhora à frente. Só assim o retiraremos dessa hipocrisia que o corrói a cada dia que passa. O que vem acontecendo na Petrobras não é novo, pode ter 20, 30 ou 514 anos, ocasião em que os índios enganaram os portugueses (e vice-versa). Nos últimos 12 anos, porém, se tornou insuportável! A verdade é cristalina! Tapar o sol com a peneira não é a melhor estratégia, presidente. Aceite logo: graças a nossas instituições democráticas – à Polícia Federal, ao Ministério Público e ao Poder Judiciário –, pertencentes a outro poder, não ao da senhora, o seu governo está sendo investigado. O mal das pernas pode tomar conta do corpo todo… Tome tento, presidente!

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