Elogio à amizade e à eterna infância

Longa reúne parceria afetuosa entre a diretora Lina Chamie e Marco Ricca

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Espelho. História de amizade do longa surgiu como extrapolação da relação entre Ricca e a diretora Lina Chamie
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Espelho. História de amizade do longa surgiu como extrapolação da relação entre Ricca e a diretora Lina Chamie

Lina Chamie e Marco Ricca se conheceram em 2006, no set de “A Via Láctea”, longa anterior da diretora. Duas personalidades fortes fazendo um filme violento, desconfortável, eles se estranharam e tiveram uma briga logo no primeiro dia de filmagem. “A partir daí, talvez por uma enorme transparência e pelo jeito dos dois, a gente se entendeu de uma maneira profunda e surgiu uma amizade, um elo bastante forte entre nós”, lembra a cineasta.

A relação se transformou em algo familiar, de passar férias juntos, e na vontade de Chamie de escrever um filme para o amigo. O resultado é “Os Amigos”, que estreia hoje nos cinemas. O longa acompanha o arquiteto paulistano Théo (Ricca) no dia em que ele enterra o melhor amigo de infância – que não via há anos – pela manhã, e se prepara para o aniversário do filho da melhor amiga, Maju (Dira Paes), à noite.

“O filme fala da amizade como esse sentimento menos glamourizado e menos dramático que o amor, de gestos cotidianos invisíveis, quase imperceptíveis. E o diferencial aqui foi que o Marco e eu, como amigos, temos uma comunhão de almas. Existe um conforto e uma zona estendida de confiança que permite que a gente mergulhe e se debruce sobre isso junto, algo que todo diretor e ator buscam e nem sempre é possível”, revela Chamie.

Essa cumplicidade e o conforto mútuo foram fundamentais, já que “Os Amigos” não tem uma estrutura exatamente tradicional. Intercalando o cotidiano do protagonista, o longa insere pequenas cenas em que um grupo de crianças narra a “Odisseia” de Homero. A justaposição ressalta a verdadeira jornada de Théo no filme: assim como Ulisses quer voltar para casa, o arquiteto deseja retornar à infância – cuja perda é representada pela morte do amigo.

São esse desejo e essa estrutura que fazem de “Os Amigos” uma fábula sobre a possibilidade de ver estrelas no céu de São Paulo. O filme contrapõe o tempo todo vida e morte, liberdade e prisão, criatividade e disciplina, o cotidiano de uma metrópole como São Paulo e a tentativa de encontrar alguma poesia no meio desse caos. E isso tudo é sintetizado na oposição entre a maturidade, como a perda da espontaneidade, e a infância como o lugar em que Théo tenta resgatar quem ele realmente é.

“No poema ‘Fábula de um Arquiteto’, o João Cabral de Melo Neto conta a história de um homem que vai se aprisionando, levantando paredes e fechando portas. Como adulto, a gente vai fazendo isso, e ele fala que, em vez de portas para fechar, deveriam existir portas para abrir. E as crianças representam isso no filme”, elabora a diretora.

Olhar. A própria Chamie descobriu que esse era o olhar de seu longa ao filmar uma cena com Maju e seus filhos no zoológico, um lugar que a diretora adorava quando criança. “Cheguei lá e é de chorar, os animais todos presos, a elefanta sofrendo. Preferia filmar num cemitério”, revela. Ainda assim, as imagens que parecem no filme são bem mais lúdicas e poéticas. “É o olhar das crianças para aqueles animais, impregnado de fábula. Eles não veem um tigre preso, mas a essência da ‘tigresa’”, analisa.

Esse tom de fábula é reforçado pela trilha sonora inesperadamente lúdica, que inclui obras como “Carnaval dos Animais”, de Camille Saint-Saens, e a “Simple Simphony” de Benjamin Britten – que o público deve se lembrar pela “The Young Person's Guide to the Orchestra” da trilha do “Moonrise Kingdom” de Wes Anderson.

A referência a Anderson é interessante, já que o registro não-naturalista dos diálogos e da atuação das crianças em “Os Amigos” lembra o trabalho do diretor.

É uma certa imperfeição na sintonia fina entre esse registro e o tom mais realista das cenas adultas – assim como uma história meio perdida envolvendo a diarista de Théo – que fazem o longa derrapar e perder um pouco o foco do que quer ser. Mas quem baixar a guarda da maturidade e se entregar à proposta de Chamie pode se encantar com uma obra imperfeitamente original e inesperada do cinema brasileiro.

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