Um “Hamlet” quase didático

Montagem do Globe Theatre, de Londres, é acessível para todos por sua capacidade de articulação e projeção do texto

iG Minas Gerais |

Ser ou não ser? Elenco usa do humor em cena na grande marca da peça: a caveira na mão de Hamlet
Helena Miscioscia / Divulgação
Ser ou não ser? Elenco usa do humor em cena na grande marca da peça: a caveira na mão de Hamlet

São Paulo. É um “Hamlet” perfeitamente compreensível, do início ao fim de suas rápidas três horas, intervalo incluído.

Na estreia brasileira, na última terça-feira, os espectadores pareciam entender mesmo antes de entrar a tradução nas legendas. Cada verso, quando não cada palavra, era expresso com significado claro. Os múltiplos sentidos de diversos termos se apresentavam bem definidos. É montagem quase didática.

Mas nem por isso deixa de ter um norte, uma visão cênica simples e direta que é incorporada, como sempre, na interpretação e na própria compleição do protagonista, o príncipe feito pelo londrino de família paquistanesa Naeem Hayat – um dos dois atores que se revezam no papel, em turnê mundial.

Não é uma representação arrebatada nem cerebral, as duas opções mais costumeiras. É um Hamlet magro, vulnerável, mas de raciocínio veloz e cujo “wit” se associa mais ao humor que ao sarcasmo.

Que está mais para um Woody Allen jovem que para Olivier. Ria-se até nos solilóquios mais avassaladores.

A interpretação se soma à visão cênica original – de três anos atrás, do diretor Dominic Dromgoole, para uma turnê europeia, muito bem editada e concentrada no texto – no propósito declarado de espalhar Shakespeare pelo mundo. Torná-lo, mais que conhecido, compreendido.

Aqui e ali, sente-se a falta do Hamlet mercurial, mais propriamente trágico, como na cena da alcova com a rainha Gertrudes, quando a violência com a mãe o leva ao primeiro homicídio, de Polônio.

Também do Hamlet mais romântico, com Ofélia. Mas estes são compensados por outros, quase desconhecidos.

Por exemplo, é emocionante, como poucas vezes nessa cena, acompanhar a reação do protagonista ao descrever o bufão Yorick, o comediante com quem ele riu tanto, com quem foi tão feliz desde criança. Caveira na mão, na grande marca da peça, sendo ele também comediante, este Hamlet pensa mais que nunca na própria morte.

Outro grande prazer da montagem é Polônio, interpretado pelo inglês John Dougall – que se reveza no papel com outros dois atores. Ele faz o público rir em praticamente todas as cenas do personagem, mas sem esgarçar o texto, pelo contrário, estritamente nos versos, na oratória ridícula de Polônio.

De maneira geral, não só pelo humor, é um espetáculo acessível para públicos não necessariamente afeitos a tragédias de várias horas. Acessível, em grande parte, pela capacidade de articulação e projeção do texto pelo pequeno elenco, sejam os atores de origem chinesa ou africana. (Nelson de Sá)

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