O existencialismo ocidental

Grupo Magiluth traz “O Canto de Gregório”, espetáculo que finaliza a Ocupação 3.0 do Galpão 3 da Funarte

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Pesquisa. Magiluth mostra seus procedimentos criativos no qual atores se estimulam por estados e presença em cena
Maurício cuca/DIVULGAÇÃO
Pesquisa. Magiluth mostra seus procedimentos criativos no qual atores se estimulam por estados e presença em cena

Para o público que assistiu ao celebrado “Viúva, Porém Honesta”, dos pernambucanos do Magiluth – que veio a Belo Horizonte, este ano, em duas ocasiões diferentes –, o espetáculo “O Canto de Gregório”, que se apresenta na Funarte, a partir de hoje, pode causar um sentimento de estranheza, motivado pela pergunta “será o mesmo grupo?”. “Para a gente, de alguma maneira, sempre parece um mesmo filme. Os trabalhos podem parecer diferentes para as pessoas, mas são acumulativos. Tematicamente, sim, eles são diferentes. Mas nós, do teatro, somos artistas da forma”, pondera Pedro Wagner, um dos atores em cena e integrante da companhia. “Nós temos espetáculos muito diferentes, que foram motivados por questões que foram se modificando. As pessoas geralmente, ao observar nosso repertório, têm essa impressão meio esquizofrênica do conjunto de nossa obra, mas o interessante de se ter trabalhos em repertório é justamente poder observar diversas fases do grupo”, pontua Pedro Vilela, diretor do trabalho e integrante da companhia. A peça vem a Belo Horizonte para fechar a programação da “Ocupação 3.0”, projeto vencedor de um edital público, promovido pela Funarte, para ocupação de seu Galpão 3. “A primeira proposta que recebemos foi de trazer novamente o ‘Viúva’, mas ponderamos, já que tínhamos outros trabalhos e alguns deles nunca se apresentaram em Belo Horizonte”, relembra Vilela. Um dos motivos da presença frequente do Magiluth na cidade é sua proximidade com coletivos artísticos de Belo Horizonte, como o Espanca!. Os pernambucanos foram convidados para o “Acto 3”, este ano, encontro de coletivos parceiros, promovido pelo mineiros e que trouxe a Belo Horizonte, além da trupe do Recife, a Cia. Brasileira de Teatro (de Curitiba) e o Grupo XIX de Teatro (de São Paulo). “O Canto de Gregório” é o segundo espetáculo de uma trilogia que se inspira na condição humana para falar do tempos vividos hoje. A peça mostra relações e discursos absolutamente racionais. “Nosso trabalho partiu de pilares da filosofia ocidental para tentar compreender o ser humano nessa contemporaneidade”, sinaliza Vilela. Foi em uma viagem a São Paulo que os então estudantes de teatro viram uma montagem da peça, com direção de Antunes Filho e, desde então, era um desejo montar o texto. Com uma dramaturgia pronta e um texto mais “hermeticamente” fechado, a montagem do texto de Paulo Santoro simbolizou um desafio para o Magiluth, que até então trabalhava com dramaturgias em processo, escritas ao longo dos ensaios. “Antes desse trabalho, tivemos um monólogo e um outro espetáculo em que não havia fala. Então, a gente quis chegar no texto, nessa discussão argumentativa. Começamos a trabalhar a partir disso”, diz Wagner. Ainda que com uma temática mais existencial e menos cercada de reviravoltas, como em “Viúva, Porém Honesta”, alguns procedimentos criativos que permeiam a obra do grupo podem ser detectados. “A forma com a qual a gente trabalha vem de estados, da presença do ator, que deixa a interpretação em segundo plano. Buscamos estar o mais presente possível, seja do colega de cena ou da plateia. Isso pede um comportamento, uma relação com o personagem que é dialética, dinâmica. Eu sou o personagem e não sou. Estou com ele, mas o critico, o questiono. São camadas que a gente investiga e tenta acionar”, comenta Wagner. Dança das cadeiras. Quando o processo de construção de “O Canto de Gregório” se iniciou, os Pedros do grupo Magiluth ocupavam lugares opostos: Wagner se empenhava na direção e Vilela estava em cena, no papel de Gregório. Alguns meses e muitas crises depois, eles resolveram trocar suas funções e assim o espetáculo estreou. “Somos e creio que sempre seremos um grupo de atores muito propositivos. O Vilela tem essa característica de conseguir canalizar e fazer toda nossa produção criativa dialogar. Ele é uma figura que costura muito. Então, ele ocupa esse lugar da direção naturalmente. Todos os nossos próximos projetos são com direção do Vilela”, finaliza Wagner. 

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