O “ovo da serpente” ou o Parque dos Dinossauros

iG Minas Gerais |

Enquanto não houver maiores e melhores informações sobre o caso Petrobras e sobre a crise em que o país está mergulhado, não vou escrever nem uma linha sobre esses assuntos. Especular não me parece um exercício saudável neste momento. Vou aproveitar para estudar textos interessantes que estão empilhados sobre minha mesa. Como este, de Wolfgang Streeck, “Como vai acabar o capitalismo?”, em boa hora publicado pela revista “Piauí”, na edição do mês de outubro deste ano. Não costumo acreditar em crises terminais do capitalismo: cansei de ouvir isso ao longo dos anos e de me frustrar esperando a nova sociedade que viria a seguir. Apesar disso, Streeck faz análises tão convincentes sobre as causas e os sintomas da crise global, os quais – embora por ele predominantemente relacionadas aos países desenvolvidos da OCDE, os 34 países que incluem os Estados Unidos e a maioria dos europeus – me levaram a não resistir a examinar seus argumentos com uma lupa. Literalmente, por vezes, porque ando precisando de fazer cirurgia contra catarata... Ao concluir o texto, o autor alinha as “cinco doenças sistêmicas” do capitalismo avançado de hoje e que resultariam do enfraquecimento das restrições – tradicionais, institucionais e políticas – ao seu avanço. Seriam estas as doenças: estagnação, redistribuição oligárquica, pilhagem do setor público, corrupção e anarquia global. As restrições enfraquecidas foram justamente aquelas oriundas do freio contraposto à sede ou fome de lucro do capital pelas organizações ligadas aos movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda atuantes. Em lugar desses freios e contrapesos, agora se encontram “tentativas de intervenção coletiva (...) locais, dispersas, descoordenadas, ‘primitivas’ – aumentando a desordem sem conseguir criar uma nova ordem”. Tudo isso foi fruto da substituição da produção de mercadorias, bens que satisfazem as necessidades ou as fantasias humanas, no dizer de Marx, pela transformação do dinheiro em gerador de mais dinheiro com o predomínio do capital financeiro sobre tudo o mais no sistema. Aí paro um instante de ler Streeck porque não posso deixar de ler o artigo do dia 19 deste mês, escrito por Delfim Netto, o mágico construtor do “milagre brasileiro”, travestido em conselheiro de Lula e Dilma, lamentando com sua verve de sempre a substituição do capital industrial pelo predomínio do mercado financeiro no Brasil de hoje. Uai, cadê o Delfim do estímulo ao mercado de capitais e do fortalecimento do sistema financeiro nos anos do “milagre”? Acho que ele foi engolido pelo “ovo da serpente” que criou e alimentou ou pelos embriões que gerariam as atrações fantásticas do Parque dos Dinossauros. E que não reclame!

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