Bom humor para falar de segregação

Politicamente incorreta, série norte-americana foge das usuais piadas racistas

iG Minas Gerais |

Tradição x modernidade. Andre e Rainbow e filhos compõem a família protagonista de “Black-ish”
Adam Taylor
Tradição x modernidade. Andre e Rainbow e filhos compõem a família protagonista de “Black-ish”

Los Angeles, EUA. Em tempos em que o politicamente correto está cada vez mais presente na TV e no cinema, chama a atenção quem tenta ir na onda contrária, como a série norte-americana “Black-ish”, no ar por lá desde setembro e sem previsão de estreia por aqui.

A atração vai além das piadas racistas, recorrentes nas produções dos Estados Unidos, e debate a segregação dos negros. A história começa quando o publicitário bem-sucedido e complexado Andre, vivido por Anthony Anderson (o detetive Kevin Bernard de “Law & Order”), tem uma crise ao pensar que os filhos estão incorporando hábitos que não têm nada a ver com o estereótipo da cultura negra.

Para piorar, a promoção de um colega branco no trabalho faz com que ele se sinta discriminado, deixando a família irritada por sua obsessão em fazer somente o que os negros fazem. “Não temos medo de ofender ninguém”, avisa o produtor executivo Larry Wilmore, também negro.

Na equipe, apenas o diretor James Griffiths é branco. “Queríamos alguém de fora da cultura para entender e filtrar as coisas”, explica Kenya Barris, criadora da série. Tracee Ellis Ross, intérprete de Rainbow, mulher de Andre, que reprova a atitude do marido, avalia que a discussão de “Black-ish” está no texto e não representada na família negra do protagonista. “Acho que, às vezes, há uma confusão com um elenco negro. Existe uma diferença entre elenco negro e série negra. Em um programa com pessoas brancas, nenhuma pessoa branca vai se identificar com isso”, analisa a atriz, filha da cantora Diana Ross.

Com humor acima do tom, a atração exagera nas situações. No primeiro episódio, Andre entra em crise quando um dos filhos diz que quer ter seu bar mitzvah, cerimônia religiosa pela qual os judeus homens passam ao completar 13 anos. Ao longo de quase meia hora, o personagem retoma clichês das origens africanas. O título poderia ser traduzido para “mais ou menos negro”, por causa do sufixo “ish”, em inglês.

Uma das armas da série é ter Laurence Fishburne no elenco e na produção executiva. Figura conhecida por filmes como “Matrix” (1999), o veterano interpreta o pai aposentado de Andre, que também bate de frente com as ideias do filho. Para ele, estar em um papel cômico é uma novidade. “A comédia é difícil. Disse ao Larry que nunca havia feito isso. É difícil quando você tem de fazer as pessoas rirem. Essa é uma das razões pelas quais acho que essa série funciona, pois estamos sendo verdadeiros”, aposta o ator.

Na trama, o preconceito passa pelos adultos da família. Segundo Fishburne, as crianças de hoje não veem mais a diferença de cor. “Elas não discriminam mais. Tenho uma filha de 7 anos. Minha mulher e eu estávamos vendo TV com ela e passou o trailer do filme ‘Dear White People’ (que fala sobre um grupo de estudantes negros), que tem as mesmas referências do nosso programa. Nós dois rimos histericamente e ela, não”, contou o ator em entrevista coletiva para jornalistas estrangeiros durante evento da rede norte-americana ABC, em Los Angeles.

A autora Kenya Barris faz coro com a teoria de Laurence Fishburne. “Não importa qual a sua tradição, cultura ou raça, sempre haverá alguém ligado a isso. E as crianças estão tentando deixar isso passar, pois elas não terão esse tipo de questão. O mesmo acontece no que diz respeito ao gênero, homossexualidade ou classe. Esse é o obstáculo entre pais e filhos. As crianças estão vivendo com uma noção elevada do que nós estamos passando no mundo atual”, filosofa a roteirista.

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