Entre o pop, o gueto e a gringa

Tulipa Ruiz estreia no Palácio das Artes, revela seu rótulo de cantautora e se afirma como referência vocal no país

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Repertório. Em seu show, Tulipa canta canções de seus dois álbuns autorais
Rodrigo Schmidt / Divulgacao
Repertório. Em seu show, Tulipa canta canções de seus dois álbuns autorais

No início de 2009, Tulipa Ruiz Chagas assinava o nome completo como uma desconhecida, até resolver mudar sua ocupação do MySpace para “cantora”. Foram cinco minutos na frente do computador pensando em alterar ou não o status, com medo de escolher um só rótulo baseado em poucos covers de Gal Costa, Ná Ozzetti e Rita Lee que ela gravava na época. “Fiquei com medo, porque não queria ficar só cantando, nunca quis só isso. Mas foi a partir daí que começaram a me ouvir e chamar para cantar em outros lugares”, revela a artista.

Hoje, Tulipa Ruiz, 36, parece ter saído da cena underground de São Paulo como um furacão hype que não deve passar ao bel-prazer da natureza. Ao contrário, seu groove hiperativo e carismático sugere que ela veio para ficar. Isso porque Tulipa ainda se mantém como rainha de festas hipsters, indies, tilelês e o que mais estiver fervendo pelas quebradas do Brasil afora, ao mesmo tempo em que agora começou a se encaixar com classe como convidada de teatros e tradicionais casas de shows. Talvez pela maturidade que os dois discos da carreira lhe deram – “Efêmera” (2010) e “Tudo Tanto” (2102) –, o seu primeiro show no Palácio das Artes, hoje à noite, vai mostrar uma artista que não se porta apenas como cantora.

“Só comecei a me sentir cantora de verdade quando compus minhas primeiras canções para o ‘Efêmera’ e pude revelar o que me dá sentimento para cantar. Mas eu gosto muito mais da nomenclatura cantautoura, é muito difundida em Portugal e também em BH, onde existe a Mostra Cantautoures, que é sensacional, aliás. Na boa, eu me sinto muito mais cantautora do que cantora”, atesta Tulipa.

Propriedade para se autolegendar ela tem. Em dois discos, Tulipa escreveu sozinha ou com apoio de parceiros 20 das 22 canções autorais da carreira e teve a balada “Só Sei Dançar com Você” regravada pela contemporânea Tiê, além de assistir a balada “Dois Cafés” ser incorporada ao repertório dos shows de Lulu Santos. “Me sinto honrada em ter sido regravada. Isso não é comum ainda. Mas tem que ser. Regravem Karina Buhr, Érika Machado, Tiê, todas compositoras de mão cheia. Será que é preciso alguém de fora fazer para ter mais visibilidade?”, questiona.

Recém-chegada da gringa, Tulipa voltou da segunda turnê da Europa – passando por cidades como Lisboa, Paris e Amsterdã, onde levou experimentações eletrônicas aliadas às suas preferências por uma vida simples, trens com destino à felicidade e aquele olhar para o amor de forma original e divertida presente em suas letras. “Foi incrível. No ‘Tudo Tanto’ a gente fez shows com a banda inteira e em lugares bem maiores, com gente entendendo minhas letras, foi demais! Sendo que no primeiro disco eu fiz bastante formações reduzidas pela estrutura que a gente tinha na época”, conta.

SHOW. Para a apresentação no Palácio das Artes, Tulipa diz ter se preparado para um evento de “gala numa casa clássica da cidade, onde sempre quis cantar”, assim como realizou o sonho de ser a principal convidada da festa de 25 anos do Circuito Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, no mês passado. “Eu fiz vários shows em BH em locais muito legais, como o Mercado das Borboletas e também em praças públicas, mas quando passava na porta do Palácio, queria entrar e cantar. O mais engraçado é que, apesar de fazer os dois circuitos, hoje em dia prefiro lugares maiores, porque os shows pequenos são bem mais intimistas e me deixam mais nervosa”, revela.

No show, Tulipa faz o que tem feito nos últimos dois anos, ao destilar energia, caretas, brincar de amarelinha em pleno palco e, de repente, ondular um timbre que vai do agudo ao grave numa malemolência típica dela – sem comparações. No palco, ela aporta com sua banda-família, encabeçada pelo pai, Luiz Chagas, ex-guitarrista da lendária banda de Itamar Assumpção, Isca de Polícia, e tendo como suporte o irmão, Gustavo Ruiz, uma das cabeças mais atentas na produção musical brasileira hoje. Somando-se à dupla, ainda estão Márcio Arantes (baixo e programação) e Caio Lopes (bateria).

Em clima de despedida da turnê de “Tudo Tanto”, que ela encerra em dezembro, as novidades do show, que carrega sucessos como “Do Amor”, “Víbora” e “Megalomaníaca”, são uma versão de Caetano Veloso (“Maior Importância”) e alguma releitura de Baby do Brasil.

Agenda

O QUE. Tulipa Ruiz

ONDE. Grande Teatro do Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537, centro)

QUANDO. Hoje, às 21h

QUANTO. R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)

Projeto A cantora Tulipa Ruiz se apresenta no Palácio das Artes pelo projeto MPB Petrobras. Antes da apresentação da artista, o mineiro Kadu Vianna, integrante do grupo Cobra Coral, faz o show de abertura em formato solo de voz e violão.

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