Velha relação incestuosa

iG Minas Gerais |

Durante o jogo de domingo que deu o quarto título brasileiro ao Cruzeiro, foi de um comentarista do SporTV a melhor expressão sobre aquilo que se via. Mais ou menos assim, Maurício Noriega afirmou que se assistia, anteontem, a mais um gol da Alemanha no palco em que se encenou a tragédia do 7 a 1, quatro meses e meio atrás. Apesar de não termos sofrido nem perto um dilúvio em Belo Horizonte, o gramado do Mineirão, ao longo da partida, evoluiu de uma plantação de arroz do Sul da Ásia para um pasto dos Pampas depois que a geada derrete. Quer dizer então que o “padrão Fifa” tem prazo de validade curto? Passeando de carro ainda na noite de domingo ou mesmo ontem, deu para perceber outros efeitos da “torrencial tempestade que nos abateu”: os flocos de asfalto que se soltam na enxurrada e deixam crateras na rua. As borracharias e oficinas de balanceamento agradecem. Quem tiver interesse arqueológico de contemplar um desses buracos consegue achar no fundo as pedras de calçamento e, na lateral da área erodida, as camadas asfálticas desse palimpsesto urbano e porco. A chuva parou, vêm tapar os buracos; choveu, os buracos voltam. É um ciclo sazonal de incompetência administrativa consentida e desperdício de dinheiro público. Nessa relação incestuosa entre políticos e empresas, viadutos caem sobre as cabeças de contribuintes antes mesmo da data de inauguração; plataformas de ônibus são feitas, destruídas e refeitas; a merenda e os medicamentos são comprados, mas não chegam; ao contrário, o equipamento de ponta é entregue, mas, sem um profissional capaz de manipulá-lo, é esquecido e sucateado em alguma sala escura; e os contratos são aditados e reajustados em um completo desrespeito a prazos. A péssima drenagem do Mineirão, os buracos sazonais na rua e todo esse rol de situações de desmazelo estatal estão sob a lupa agora, ao se deslindar o petrolão pela operação Lava Jato. Presos, os empreiteiros top do Brasil, os sesmeiros ou herdeiros das capitanias dos nossos dias, têm revelado como funcionava o esquema e como a propina paga às gordas saúvas da Petrobras e dos partidos era investimento a se lançar nos controles contábeis. Pagavam-se R$ 10 milhões sorrindo para se lucrar R$ 100 milhões depois, às expensas do contribuinte. Claro que, no meio do caminho, existem atravessadores, burocratas corruptos, lobistas e doleiros à caça de suas comissões. Contudo, no outro extremo da mesa em que se sentam os empreiteiros, a moeda tem outra métrica, e a corrupção ganha caráter político. Com o perdão do simplismo, o lucro do político é eminentemente o poder e sua manutenção. Se cair dinheiro na conta, para quem o busca, é consequência. É mais ou menos essa a síntese dos principais escândalos revelados após a redemocratização. Como cortar definitivamente esse vínculo maldito? Parece insistência e crença ingênua em uma panaceia, mas a resposta está na reforma política. O fim do financiamento empresarial de campanhas eleitorais já passou da condição de urgência no Brasil.

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