Para sonhar, mas sem sentir dor

Beth Moysés convoca noivas pelo fim da violência contra a mulher

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Bordados nas luvas representam marcas e novos sonhos femininos
beth moysés/divulgação
Bordados nas luvas representam marcas e novos sonhos femininos

Dezenas de noivas caminham em silêncio pela rua. Em pouco tempo elas se aquietam, mas não se acomodam, e começam a bordar as próprias luvas brancas e delicadas com linhas pretas agressivas, ou melhor, com marcas visíveis de uma violência sorrateira que ainda acompanha o sexo feminino em casa, nas ruas, no trabalho e em outros ambientes comuns revestidos de medo. Esse é o retrato que a artista visual Beth Moysés pretende expor na praça Diogo Vasconcelos, na região da Savassi, em uma performance contra as agressões às mulheres justamente nesta terça, no Dia Internacional de Combate a Violência à Mulher.

Há pelo menos 14 anos a artista se dedica a levar a diversas cidades do mundo a performance chamada de “Reconstruindo Sonhos”, que passou por lugares como Montevidéu, no Uruguai, Sevilha e Valência, na Espanha, e até Xangai, na China. “Em cada lugar foi diferente. A primeira, em 2000, aconteceu em São Paulo e as mulheres despedaçaram pétalas de rosas na avenida Paulista toda, até chegarem em uma espécie de cova, onde enterraram os espinhos da flor com uma pá para simbolizar o pedido de fim pelas dores de cada uma”, conta Beth.

Justamente por cada mulher ter uma história intransferível de violência sofrida direta ou indireta, Beth Moysés prefere não usar atrizes na ação e, sim, mulheres comuns dispostas a se envolver com a performance. Na capital, 60 voluntárias vestidas de noiva vão participar do ato marcado para as 19h, no coração da Savassi. Mais do que repúdio à violência contra a mulher, a performance também questiona o simbolismo de um vestido branco cultuado como sinônimo de felicidade. “Eu acho que a violência acontece justamente porque a mulher é obrigada a uma felicidade irreal, como o padrão social do casamento, algo que não existe. O bordado nas luvas serve justamente para recordar esse momento, lembrar o amor romântico vendido em um vestido, mas que acaba tendo uma nova história tecida por essas próprias mulheres, ao mesmo tempo em que elas revelam suas dores bordando o desenho das linhas de suas mãos”, diz Beth.

EXPOSIÇÃO. Em um ato complementar à performance, a galeria Murilo Castro vai abrigar uma exposição de fotos feitas dos detalhes de cada noiva participante do ato, até o próximo dia 20 de dezembro, com entrada franca. Junto a isso, Beth Moysés também traz à galeria a exposição “5.664 Mulheres”, que consiste em uma bandeira do Brasil toda desenhada com cápsulas de balas de revólver, fazendo referência à média das mulheres mortas no Brasil por ano, segundo um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Agenda

O QUÊ. Performance “Reconstruindo Sonhos”

ONDE. Praça Diogo Vasconcelos

QUANDO. Nesta terça, às 19h

QUANTO. Ação gratuita na rua

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