Para quem gosta de cinema

Biografia assinada por Shawn Levy deixa de lado as fofocas e se concentra na dedicação do ator com sua profissão

iG Minas Gerais | Cássio Starling Carlos |

Ícone. Em mais de 50 anos de carreira, Robert De Niro coleciona personagens e filmes inesquecíveis
Andy Kropa
Ícone. Em mais de 50 anos de carreira, Robert De Niro coleciona personagens e filmes inesquecíveis

São Paulo. “Caro Robert, não me lembro de ter sido tão humilhado por um ator norte-americano num ano. Bem, você fez isso comigo além da conta. Nada tenho a acrescentar”.

O breve bilhete enviado por Paul Newman (1925-2008) a Robert De Niro após assistir ao trabalho dele em “Touro Indomável” no fim de 1980 dá a dimensão do respeito imposto pelo ator em meio à mesma geração de Al Pacino, Dustin Hoffman, Jack Nicholson, Jon Voight e Robert Duvall, entre outros hoje mais esquecidos.

Esta e outras centenas de histórias fornecem robustez a “De Niro: A Life” (editora Crown Archetype, R$ 59, importado), biografia assinada pelo jornalista e crítico Shawn Levy e recém-lançada nos Estados Unidos.

Como em “King of Comedy: The Life and Art of Jerry Lewis” (1997) e “Paul Newman – Uma Vida” (2009, publicado no Brasil pela editora Agir), a abordagem de Levy não prioriza conteúdos que poderiam atrair mais o leitor ávido por fofocas.

Mesmo que seja “tecnicamente uma biografia não autorizada”, como assume o autor, Levy opta pela máxima discrição quando trata de questões da intimidade, como a preferência sexual por mulheres negras ou as experiências com drogas.

Já quem gosta de cinema e, em particular, dos filmes, grandes ou pequenos, estrelados por De Niro em mais de 50 anos de atuação, encontra uma orgia de informações nas mais de 600 páginas do volume.

Mais que um punhado de anedotas, a experiência de Levy como crítico de cinema foca a vida de De Niro como parte do processo de emergência da Nova Hollywood, a fase da década de 70 em que jovens cineastas ganharam status de autores e puderam dar a temas adultos um tratamento formal raro no âmbito da indústria.

Além de Coppola, Scorsese, Michael Cimino e Brian De Palma, De Niro atuou sob a direção de Elia Kazan, Bertolucci e Sergio Leone no período de maior nobreza de sua carreira.

Junto a esse aval, seus dois Oscar de melhor ator e cinco indicações só o deixam abaixo de Jack Nicholson em prêmios da Academia, entre seus companheiros de geração.

Com a ajuda da pinta no lado direito da face, marca que desde cedo fez dele um tipo inconfundível, De Niro nunca se contentou com a psicologia para tornar suas atuações mais que memoráveis.

Seguidor do conceito de ator-camaleão, ele se impôs dietas e treinos, aprendeu dialetos e tirou licença para dirigir táxis, perambulou pelo lado selvagem da Nova York da década de 70 e frequentou bares de metalúrgicos de Ohio para apreender a peculiaridade de seu comportamento.

Impressionado com a disciplina e sua necessidade de se aprofundar no ato de representar, o cineasta Sergio Leone, que o dirigiu no monumental “Era Uma Vez na América”, resumiu a arte de De Niro: “Bobby, antes de tudo, é um ator. Clint (Eastwood), antes de tudo, é uma estrela. Bobby sofre; Clint boceja”.

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