Um salto no escuro

Aos 46 anos, Hugh Jackman não quer ser mais o personagem de ação e está em busca de novos desafios no teatro

iG Minas Gerais |

Encontro. Hugh Jackman (dir.) e Jez Butterwortho, autor da peça “The River”, em ensaios em Nova York
EHTAN HILL
Encontro. Hugh Jackman (dir.) e Jez Butterwortho, autor da peça “The River”, em ensaios em Nova York

 

Nova York, EUA. O Wolverine nunca envelhece, mas o tempo certamente não está parando para o ator Hugh Jackman.

Jackman, que completou 46 anos em outubro, se cansa com mais facilidade hoje em dia – ou pelo menos é isso o que ele disse depois de dar uma resposta atravessada durante uma entrevista. No ano passado ele terminou seu terceiro tratamento contra o câncer de pele. Agora ele se inspira em atores como Paul Newman e Richard Burton, o que significa que espera mais de sua carreira. Ele foi escalado para o próximo filme dos “X-Men”, embora não pareça particularmente animado com o sucesso, afirmando que não se importaria se seu papel como Logan/Wolverine fosse menor.

“De certa forma, eu ainda me acho jovem e tenho muito tempo pela frente. Mas então me dou conta que já tenho 45, 46 anos, e sinto a necessidade de assumir desafios maiores: se não fizer isso agora, vou fazer quando?”, afirmou Jackman no lobby do hotel.

Ele está respondendo a essa pergunta com passos pequenos (um regime de exercícios durante a madrugada perto de sua casa em Manhattan) e grandes, como abandonar o velho projeto do musical “Houdini”, optando por entrar em cartaz com um drama sombrio chamado “The River”, que está na fase de ensaios abertos na Broadway.

À primeira vista, “The River” parece um papel clássico para Jackman: seu personagem é um cara durão, mas romântico – apropriadamente chamado de “o homem” – que foge com a namorada para pescar e se divertir no interior. Mas as aparências enganam, tanto para Jackman, quanto para sua peça.

A idade está escrita em seu rosto (depois de um dia longo de trabalho, ele fica tão detonado quanto qualquer um), e ele não é tão imponente quando não está fazendo exercícios constantes para o papel de Wolverine: seu sorriso é mais atraente que seus bíceps ou o peito cabeludo. E a peça tem uma qualidade obscura e muitas vezes sinistra. Ele já não é mais o personagem de ação.

“The River” também deu a Jackman uma oportunidade de trabalhar pela primeira vez com um grande dramaturgo, Jez Butterworth, cujo talento de explorar os lados sombrios e destrutivos dos homens garantiram a ele a indicação ao Prêmio Tony de 2011 pelo drama “Jerusalem”.

O personagem criado por Butterworth pode deixar alguns fãs de Jackman desconfortáveis com todos os segredos revelados pelo “homem”, mas Jackman afirma que esse é “o melhor personagem que já interpretou”.

“É uma coisa que eu nunca tive a chance de fazer, um personagem bem escrito com um ar atemporal e mítico, que é perigosamente parecido comigo em alguns aspectos”, comentou Jackman ao lado de Butterworth antes de um dos ensaios. “Não importa o que eu quero da minha vida, tem que ser agora. E acho que o ‘homem’ tem a mesma sensação de urgência depois de ter se conectado com tantas mulheres. Ele quer saber se é capaz de manter isso tudo”.

“The River” também é uma mudança para Butterworth, e seu trabalho mais pessoal até o momento, recoberto dos medos de um homem que não sabe se é capaz de manter um relacionamento íntimo. Ele começou a esboçar a história durante a temporada na Broadway de “Jerusalem” – um épico de três horas com 16 personagens que desconstrói a Inglaterra moderna por meio das desventuras de um rebelde (interpretado por Mark Rylance). Em busca de uma nova direção, ele decidiu que “The River” seria uma peça de apenas três personagens e muito mais curta (com apenas 80 minutos de duração).

A primeira parte da peça foi produzida rapidamente, até que o “homem” é confrontado com uma recordação simbólica. Mas, depois disso, Butterworth se viu na mesma situação que Jackman: refletindo sobre seus próximos passos e se perguntando se eles são uma escolha boa o bastante.

Um antigo colaborador de Butterworth, o diretor Ian Rickson contribuiu com provocações de diversos artistas: citações escritas em cartões, como uma de Ted Hughes sobre como toda poesia “revela algo que o escritor não queria dizer, mas precisa desesperadamente comunicar, ou apresentar”.

Rickson também realizou leituras informais da peça com outros atores, mas Butterworth não conseguia progredir com a escrita.

Demorou um ano até que ele se sentasse e escrevesse a segundo parte da peça em apenas uma noite.

“Isso foi duas semanas antes de minha irmã morrer de câncer. Ela passou seus últimos dias de vida em nossa fazenda”, afirmou a respeito de Joanna Butterworth, que era administradora da Academia Londrina de Música e Artes Dramáticas. Ele dedicou “The River” a ela.

“De repente, senti que podia correr o risco que a peça esperava. Era como se eu tentasse olhar para o espelho, sem que ele olhasse de volta para mim – como se isso fosse possível. Eu queria criar momentos que causassem arrepios. Essa foi a peça mais difícil que já escrevi”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave