Facções terroristas perdem poder, e combatentes desertam

Militantes do Al-Shabab deixam fileiras do grupo depois da morte do líder Ahmed Abdi Godane

iG Minas Gerais | Isma'il Kushkush e Jeffrey Gettleman |

Temor. Noor, Bashir e Ahmed, três desertores do grupo fundamentalista Al-Shabab, pediram para não ter a identidade revelada por medo
DANIEL BEREHULAK
Temor. Noor, Bashir e Ahmed, três desertores do grupo fundamentalista Al-Shabab, pediram para não ter a identidade revelada por medo

Baidoa, Somália. Bashir era um crente verdadeiro, um soldado raso que recentemente desertou após ver inocentes demais serem mortos. Ahmed desertou do Al-Shabab porque queria uma família de verdade, e não apenas um monte de militantes sociopatas fortemente armados que se autodenominavam uma “família”, ele disse. E a jovem Nurta era uma assassina esbelta, com um cachecol roxo brilhante e grandes olhos aparentemente inocentes. “Não existe vida com eles”, disse Nurta que, como os outros desertores do Al-Shabab, solicitou anonimato por medo de represálias.

Mesmo antes de seu líder Ahmed Abdi Godane ser morto em um ataque aéreo norte-americano em setembro, o grupo fundamentalista Al-Shabab da Somália, antes uma das células mais poderosas da Al Qaeda, começou a debandar. Nos últimos meses, o grupo vem perdendo território – e combatentes. Dezenas de desertores se hospedam em um prédio feito de concreto e fortemente vigiado em Baidoa, cidade da Somália central.

O quadro que pintam – com sua descrição e também por sua presença na casa de recuperação fora do campo de batalha – é o de um Al-Shabab em declínio, sem um líder carismático, com seus postos definhando, uma organização antes poderosa agora parcialmente enfraquecida, embora ainda perigosa.

Fuga. No começo de outubro, com a aproximação dos soldados de paz da União Africana, os combatentes do Al-Shabab fugiram de um dos últimos pontos estrategicamente importantes que o grupo controlava na Somália, Barawe, antiga cidade portuária no litoral sul. Os moradores disseram que um comboio dos carros de batalha do Al-Shabab seguiu para o deserto, se dividindo em grupos menores que então desapareceram em direções diferentes.

Há alguns anos, o Al-Shabab mantinha boa parte do sul da Somália em seu domínio brutal. Os militantes cortavam cabeças, matavam crianças de fome e raptavam as noivas adolescentes.

Até o surgimento do Estado Islâmico, o Al-Shabab controlava mais territórios do que qualquer outro subgrupo da Al Qaeda, arrecadando milhões de dólares com a administração de portos e forçando impostos, que eram usados para bancar ataques terroristas em toda a região. O Al-Shabab era visto como a causa – e o efeito – dos anos de caos na Somália e uma das ameaças mais graves aos interesses norte-americanos na África. O grupo era considerado uma ameaça direta aos Estados Unidos continentais. Vários dos seus combatentes, inclusive os mais durões, eram cidadãos norte-americanos, capazes de lutar na Somália em um dia e potencialmente retornar para os EUA no outro.

Mas os soldados de paz da União Africana expulsaram os combatentes de todas as grandes cidades do sul da Somália. A população somali inquestionavelmente se voltou contra o Al-Shabab.

Aprendizado. Na “instalação de transição”, como o governo somali chama a casa de recuperação dos Al-Shabab em Baidoa, os mais velhos estão ensinando informática, carpintaria e soldagem. O jeito mais fácil de desradicalizar ex-jihadistas, afirma a teoria, é lhes dando empregos.

Todos os ex-combatentes afirmaram que se sentiam caçados. Mesmo em Baidoa, os agentes do Al-Shabab continuam entrando e saindo sem serem detectados.

Ahmed, 26, ingressou no grupo quatro anos atrás por causa da promessa que lhe foi feita. “Eu não tinha emprego. Eles me disseram que eu iria ganhar muito dinheiro, uma casa de campo e que iria para o paraíso”, ele disse. Porém, após lutar para o Al-Shabab durante três anos, Ahmed nunca ganhou a sua casa de campo. “Sem vida, sem família, sem futuro”, lamentou.

Noor, 29, outro desertor, era membro de um grupo rival quando foi capturado e forçado a lutar para o Al-Shabab. Ele contou que eles “passavam uma mensagem errada sobre o islamismo”.

Quando Bashir, 24, ingressou no Al-Shabab, acreditava nas ideias do grupo. Mas quando Godane assumiu o Al-Shabab, por volta de 2008, Bashir não sabia mais em que acreditar. Godane “permitia a morte de pessoas inocentes. Fico feliz em saber que ele está morto”.

Nurta diz que o seu envolvimento com o Al-Shabab nunca foi uma escolha. Ela foi sequestrada quando ainda estava na escola, aos 16 anos. “Fui treinada para atirar em alvos em áreas públicas, a saltar sobre edifícios e atingir torres de vigia”, contou a dissidente.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave