“O sofrimento é o mesmo, para qualquer classe social”

Ivo Pitanguy - Cirurgião plástico Autor do livro “Vale a pena viver”

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

“Lutei muito para mostrar o lado social da cirurgia plástica.”
Joaquim Nabuco / Divulgacao
“Lutei muito para mostrar o lado social da cirurgia plástica.”

Lançando sua autobiografia, o cirurgião plástico mais renomado do mundo falou a O TEMPO sobre sua profissão, como avalia a cirurgia plástica no Brasil, o lado social do procedimento e a energia que tem para trabalhar. Veja abaixo os melhores trechos da entrevista.

O senhor está lançando seu livro, que é uma autobiografia. Como o resumiria? Esse livro representa a história de uma aventura de uma longa vida. Essa aventura fala do sentido de ter escolhido uma coisa que eu gosto de fazer, o sentido dos amigos e de tudo o que foi se acrescentando ao longo dessa vida.

Por que só agora resolveu lançar a autobiografia? Não existe o “só agora”. Somos eternamente jovens quando temos vontade de fazer alguma coisa. Mas chega uma hora em que resolvemos fazer uma viagem (pela vida) e contar com entusiasmo e alegria de viver. O sentido do título (“Viver Vale a Pena”) é este: de que a vida é um dom que nós devemos preservar. Dar a cada instante o seu valor e, com isso, dar a seriedade que cada segundo tem para nós. O tempo que passa tem muito valor.

O senhor está com 91 anos e teve uma vida cheia de experiências. Como foi o processo de resgatar essas memórias? Na realidade, tenho uma boa memória, então as experiências estão muito vívidas. O processo de reviver alguns momentos tem essa nostalgia. Você não está mais vivendo aquilo, mas tem a alegria de tê-los vivido.

No livro, o senhor fala muito de sua profissão. É um dos assuntos centrais do livro. Um dos temas principais é o fato de eu ter formado uma escola com o objetivo de deselitizar a cirurgia plástica, colocá-la como uma especialidade médica e mostrar o lado humano – aspecto da medicina que aprendi com meu pai, também médico. O livro é a história de um médico, da vida de um médico. Dentro disso tudo, existe um lado constante, que é o do entusiasmo pelo que esse médico faz, gosta de fazer e continua gostando de transmitir.

O senhor ainda opera? Eu ainda faço algumas coisas na clínica. Ainda tenho conferências, coordeno cursos de pós-graduação. Nas cirurgias, atualmente eu faço o diagnóstico, dou consulta para ver o paciente. Mas no ato físico da operação, eu estou mais orientando os cirurgiões.

Quanto custa uma cirurgia plástica em sua clínica? Qual a média de preços? Em todo o livro, você não verá uma única referência a dinheiro. Na minha vida toda, você não vai me ouvir falar uma vez em dinheiro. Na Santa Casa, os pacientes são atendidos sem pagar nada. Em minha clínica, eles pagam mais ou menos os mesmos valores que são praticados pelos cirurgiões do Brasil, mas pode ser um pouco menos, dependendo das condições do paciente. Sempre aprendi a não falar em dinheiro e a não julgar as coisas por seu valor material – mas sim pelo lado humano.

Popularizar a cirurgia plástica é um tema ao qual se dedicou muito, correto? Quando comecei, há muitos anos, a cirurgia plástica era considerada uma coisa de vaidade, e não de bem-estar. Lutei muito para mostrar o lado social da cirurgia. Se a pessoa tem um nariz grande, se não tiver a mama, se já tiver tido muitos filhos e tiver um abdômen que a está incomodando muito, o sofrimento é o mesmo. É importante as pessoas procurarem criar uma escola com a capacidade de atender as pessoas independentemente de sua classe social.

O Brasil é, hoje, o campeão mundial em número de cirurgias plásticas. Ao que o senhor atribui isso? Essa estatística tem a ver com o fato de que o Brasil formou uma série de bons cirurgiões. Há várias escolas de qualidade, e isso influencia muito para a população ter a confiança de fazer uma cirurgia plástica. Aqui, há cirurgiões bem- preparados nas menores cidades do país, coisa que não acontece em outras partes do mundo. Esse número também se justifica pelo clima, por nossa exposição do corpo, por uma maior consciência da própria imagem.

O que há de mais moderno em técnicas de cirurgia plástica? Não existe essa coisa de “mais moderno”, essa “última coisa”. Sempre existe algo que vai surgir.

Temos visto um crescimento do número de cirurgias íntimas. Como o senhor avalia isso? Na cirurgia plástica, sempre entrou a cirurgia íntima. Uma parte está na rotina ginecológica, como a reconstituição do períneo. Mas cirurgias na parte externa, nos grandes lábios, sempre fizeram parte do dia a dia da cirurgia plástica.

Nos últimos anos, vimos também muitos casos de pessoas que se deformam com cirurgias plásticas. Como saber que é hora de parar? Pode haver um acordo entre médico e paciente? Não há acordo. O cirurgião é um médico como outro qualquer e deve avaliar se a operação vai trazer um benefício ou não para o paciente. Se ele sentir que não vai trazer, então ele não deve operar.

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