Os alcances da arte na rua

Camilo Belchior - Consultor e mestre em design

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

“Se mais empresas investissem na valorização de seus muros, com certeza teríamos um lugar mais prazeroso para se viver.”
Ludmila Loureiro
“Se mais empresas investissem na valorização de seus muros, com certeza teríamos um lugar mais prazeroso para se viver.”

 

O mestre em design, inovação e sustentabilidade Camilo Belchior é também consultor estratégico. Trabalhando nesta função, tomou frente do projeto Mural, que, há quatro anos, expõe obras de artistas nacionais e internacionais em vias públicas de Belo Horizonte. Ao MAGAZINE, ele falou sobre as reverberações e da recém-lançada coletânea sobre processos criativos.

Fale um pouco sobre o projeto Mural. Você faz parte dessa concepção desde o surgimento dele?

O projeto Mural faz parte das várias estratégias de design que criei especialmente para a loja Templuz. Meu objetivo com esse projeto foi associar a marca com temáticas culturais. Isso valoriza a empresa. O projeto é dividido em edições e cada uma delas tem a duração de um ano. Em cada edição, 12 artistas expõem um trabalho, inserido nas áreas de fotografia ou artes plásticas, durante 30 dias. Além disso, sempre acreditei na democratização das expressões artísticas em geral e do design, podendo levá-las ao maior número possível de pessoas. Acredito que a arte deva fazer parte do cotidiano das pessoas e que as cidades ficam mais vivas com a arte feita nos muros.

Como é feita a seleção dos artistas que irão apresentar seus trabalhos no painel?

Para cada edição, determino segmentos diferenciados com o intuito de sempre surpreender o espectador. Assim, sempre tivemos uma variedade bem interessante de profissionais, segmentos e técnicas. Na primeira e na segunda edições, a escolha foi por meio de um júri. Na terceira, procuramos diversificar ainda mais a técnicas e as referências culturais, buscando artistas fora do Brasil. Para isso, contei com a ajuda do executivo Ryan Roth, um amigo britânico que tem acesso a um número expressivo de artista do mundo inteiro. A partir dele, convidamos profissionais da Coreia do Sul, Polônia, Ilhas Maldivas, Grécia, Irlanda, China e Tailândia. Nesta quarta edição, contamos com 12 fotógrafos de segmentos diferentes, especializados em moda, natureza, espetáculos, casamentos, documentários e editoriais, tanto nacionais quanto internacionais. Essa edição teve início no mês de junho e vai até junho de 2015.

Por que o paredão como suporte para a concepção do projeto?

Quando iniciei minha consultoria com a empresa, em 2006, tinha sempre a percepção de que o paredão, localizado em frente à loja, era algo a ser explorado. A proposta foi aproveitar esse suporte, a princípio sem utilidade alguma, para difundir arte 24 horas por dia para quem transita pela avenida Nossa Senhora do Carmo. Na época, os leds de alta potência estavam sendo mais usados e minha ideia foi usar as barras dos objetos. Com isso, o paredão passou a ter características ideais para a instalação do projeto: visibilidade perfeita durante o dia e à noite.

A obra “Arte Urbana – Expressões Gráficas Muralismo” relata o processo criativo desses artistas. Qual a importância de compartilhar o processo criativo de artistas, seja para outros da mesma área, seja para o público em geral?

O processo criativo é amplo e possui características muito específicas dependendo de quem faz e como faz. A mostra de alguns desses processos, bem como os aspectos peculiares da personalidade profissional dos participantes do projeto, juntamente com exemplos de sua obra, possibilitam ao profissional ter seu trabalho divulgado. Além disso, registrar num livro tais informações gera conteúdo educativo que pode alimentar o processo de desenvolvimento de novos profissionais no mercado da mesma área de conhecimento ou de áreas correlatas. Além de falar sobre o processo criativo de cada artista que passou pelo projeto, abordamos a importância da arte urbana na atualidade e como ela pode trazer novas possibilidades de diálogos na cidade. A arte faz o público pensar e gera novos deslocamentos. Com a coletânea, trouxemos outros exemplos de arte urbana que podem nos inspirar muito a desenvolver projetos inovadores em Belo Horizonte. A obra está disponível para download no www.projetomural.com

As intervenções urbanas têm se tornado cada vez mais frequentes, principalmente no que diz respeito a grafites em muros. No caso desta que dá origem à coletânea, é algo fixo. Você acha que os transeuntes que são afetados diariamente por essa arte são estimulados em algum sentido?

Eu acredito sim que as intervenções urbanas afetam diretamente todas as pessoas ao seu entorno. O projeto Mural em especial, pelo tempo de existência, já provoca nos transeuntes frequentes da avenida uma expectativa. Digo isso por que entrevistamos pessoas que transitam a pé e de carro pela avenida e a resposta foi unânime. Posso citar o trabalho de Eduardo Fonseca, uma pintura de um corpo humano, de terno, com uma cabeça de cachorro dobermann. O trabalho dele provocou nas pessoas as mais variadas reações. Tanto que um dia, uma pessoa entrou na loja, pediu para falar com a gerente por que ele gostaria de saber o que significava aquela imagem.

Para alguns artistas, o mural do projeto significa um ponto de partida para carreira, não é mesmo?

Sim, principalmente pela possibilidade de se inserir no mercado com a divulgação do trabalho. O Rafael Martini, por exemplo, fazia fotos amadoras de celular, apenas como hobby. Quando conheci suas fotos por meio do Instagram, fiquei impressionado com a qualidade conceitual das imagens e o convidei para participar do projeto. Ele mesmo me disse que nunca havia parado para pensar em transformar o seu hobby numa segunda profissão, o que o fez mudar de ideia a partir da sua participação no projeto. Hoje, pouco mais de um mês de sua participação, ele já tem perspectiva de ter a sua primeira exposição individual em Belo Horizonte. O galerista Leonardo Salvo, sócio-proprietário da galeria Urban Arts, relatou que muitos artistas que expuseram no projeto Mural hoje fazem parte do coletivo da Urban Arts. Ele citou o exemplo do Ataíde Miranda, que expôs na terceira edição do projeto, e, logo depois, expôs várias de suas obras na galeria.

Como o projeto estimula o intercâmbio cultural entre países?

O projeto teve um de seus pontos altos exatamente na possibilidade de trazer a Belo Horizonte o trabalho de profissionais que provavelmente o belohorizontino jamais teria a possibilidade de conhecer. Com a coletânea, acredito que esse diálogo entre os artistas internacionais e brasileiros irá se intensificar ainda mais, principalmente por relatar técnicas e processos de criação que são muito diferentes dos utilizados em nosso país. Isso enriquece o trabalho e traz novos repertórios para os artistas.

Qual sua opinião sobre manifestações artísticas em muros, como o grafite e pichação?

Particularmente, gosto muito das intervenções em áreas urbanas. Principalmente intervenções que sejam positivas, ou seja, imagens que valorizem o local e o entorno de onde elas estão. O grafite vem assumindo a cada dia mais importância em nossas cidades com, inclusive, artistas renomados que levam sua arte de rua para as galerias. A pichação possui códigos muito próprios, muitas vezes de difícil entendimento para o público. Reconheço que todas essas formas traduzem possibilidades de escritas na cidade. Eu, como designer, me sinto mais tocado com o grafite e intervenções artísticas. Se mais empresas investissem na valorização de seus muros, com certeza teríamos um lugar mais prazeroso para se viver.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave