Borges e a delação premiada de Judas – final

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Intervenção sobre detalhe da Praça Tiradentes, em Ouro Preto
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Vamos recapitular: Judas vendeu Cristo por 30 moedas de prata, matou-se ou foi assassinado, decidindo antes de tudo, para maior glória de Deus, mortificar o espírito, não a carne. Reivindicou para si as mais terríveis culpas reservadas a um ser humano, e que nenhuma virtude redime: o abuso de confiança e a delação. Pausa: se alguém acha que vou misturar em minha gororoba a delação premiada de nossos canalhas atuais, engana-se: antes de chegar neles, se chegar algum dia, terei de passar por cima da ossada de Joaquim Silvério dos Reis, o maior dos canalhas brasileiros até o ano passado. JUDAS Ó CRISTO! Borges adorava se divertir com a ingenuidade alheia. Assim, escolheu Nils Runeberg e, no conto “Tres versiones de Judas”, foi às últimas consequências. O beijo e a delação foram o começo. Através dessa infâmia, Judas se condenou ao Inferno, pois, segundo ele próprio, a glória de Jesus lhe bastava, e nenhum homem deveria aspirar à mínima migalha de glória, que diminuiria a do Senhor. Mas isso não é suficiente, Runeberg tem ideias ainda mais estranhas. Cristo, como Deus, não precisaria se rebaixar a homem para nos salvar. Sendo onipotente, poderia tornar-se o Salvador sem se conspurcar, revestido de humanidade. Não se rebaixando, preservaria sua divindade e não correria os riscos da duração, da mortalidade, da feiura, do suor, da dor e – principalmente – do pecado. Mas não. Em seu desejo absurdo de provar aos homens que era Deus, rebaixou-se até à carne. E tornou-se igual a qualquer um de nós, eu e você, digamos. CRISTO Ó JUDAS! Segundo Borges, o argumento de Runeberg não é complexo, embora a conclusão seja monstruosa. Afirmar que Cristo foi homem e incapaz de pecado, é contraditório. “Os atributos”, diz Runeberg, “de ‘impeccabilitas’ e ‘humanitas’ são incompatíveis”. Se é humano, é pecador, como num silogismo que poderia ser construído assim: “Cristo é homem; todo homem é pecador; logo, Cristo é pecador”. Ninguém escapa ou, na terminologia de Sartre, ninguém é inocente. Assim, o Redentor podia sofrer cansaço, frio, dúvidas, fome e sede. Acima de tudo, podia pecar – e perder-se, podendo ser condenado ao inferno. Portanto, quando se tornou homem, Cristo se arriscou até à infâmia, até ao abismo. “Limitar a dor desse homem à agonia da tarde da crucificação é blasfematório”. O ORGULHO DE DEUS Como Todo-poderoso, e já que decidiu ser homem, Cristo poderia escolher “qualquer dos destinos que tramam a perplexa rede da História: poderia ser Alexandre Magno ou Pitágoras ou Ele mesmo, Jesus. Mas escolheu um destino ínfimo: foi Judas”. Esta é a conclusão abominável de Borges-Runeberg. Para quê? Qual era objetivo de Cristo ao escolher ser o discípulo que o trairia, entregue aos romanos por 30 moedas de prata? Não se sabe, mas as conjeturas de Runeberg levam ao pecado do orgulho. No instante infinitesimal da transformação, no momento da escolha sobre quem seria, o Cristo-quase-homem optou, tentado pelo pecado do orgulho, e para desespero do Cristo-já-homem, em tornar-se o mais perigoso, para a sua divindade tornada humana, de todos os homens. Condenado à infâmia, transformado em delator, “a culpa que nenhuma virtude redime”, Cristo se condenou também ao inferno. CONTRADIÇÕES Restam, sem dúvida, dois problemas. Como o mesmo indivíduo poderia ser Cristo e Judas a um só tempo? A explicação é simples: aquele que se passava por Cristo era na verdade Judas, e vice-versa. Mas e a ressurreição, depois da crucificação? Simples, também: Deus, não podendo recuperar o filho, definitivamente condenado ao “fogo que não se apaga”, decidiu resgatar Judas e entronizá-lo no lugar do filho perdido. De modo que, desde então, ou há cerca de 2.000 anos, Judas é o Filho. INDIFERENÇA Menos do que repudiar, ninguém aceitou os argumentos de Runeberg. “Kristus och Judas” foi publicado em Estocolmo no ano de 1909 e permaneceu, por assim dizer, inédito. Ninguém comprou o livro, ninguém o leu. Runeberg compreendeu que não era chegada a hora da revelação. Sentiu que estava convergindo para antigas maldições divinas. Recordou “Elias e Moisés que taparam o rosto para não ver Deus; Isaías, que foi tomado de terror quando seus olhos viram Aquele cuja glória recobre a Terra; Saul, que se tornou cego no caminho de Damasco; o rabino Simon ben Azaí que viu o paraíso e morreu; o famoso feiticeiro Juan de Viterbo, que enlouqueceu quando viu a Trindade”. Não seria ele, Runeberg, também culpado desse crime obscuro? Não seria essa a blasfêmia contra o Espírito, a que não seria perdoada? Que castigo seria o seu, por haver descoberto e divulgado a horrível farsa do Deus-Filho? BORGES, O IMPIEDOSO “Bêbado de insônia” – conclui Borges – “e de vertiginosa dialética, Nils Runeberg errou pelas ruas, rogando aos gritos que lhe fosse dada a graça de partilhar com o Redentor o inferno. Morreu de um aneurisma rompido em primeiro de março de 1912. Os estudiosos de heresias talvez se lembrem dele. Ao conceito de Filho, que parecia esgotado, acrescentou as complexidades do mal e do infortúnio”. Agora, sim, poderemos cuidar de nossos canalhas, Silvério dos Reis à frente.

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