Por trás daquele cover

Em cenário crescente no Circuito do rock, bandas da capital veneram ídolos jurássicos e se dedicam a tocar clássicos do rock das décadas de 60, 70 e 80

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

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Enquanto a galera grita o refrão de “I Can’t Get No” (Satisfaction) em algum ponto alto da madrugada, um bêbado clama por Mick Jagger e acredita que ele está ali, no coração da Savassi, em mais uma noite dedicada a bandas covers na capital. Por trás dos roqueiros que encarnam os Rolling Stones, porém, existe um empregado da Assembleia Legislativa que acorda cedo no outro dia, um motorista de ônibus escolar e outro funcionário público que cumpre oito horas de trabalho diárias, além de darem conta de família, filhos e uma vida nada badalada.

Entre o anonimato e a catarse pontual nos shows, assim como acontece com os integrantes do It’s Only Rolling Stones, Keta (vocal), Fabinho (guitarra), Carlos Ivan (teclado), Dida (baixo) e Nenem (bateria), boa parte das cerca de 60 bandas covers de rock n’ roll sobrevivem em Belo Horizonte. São centenas de músicos que se dedicam a tocar velharias dos ícones do rock por uma paixão empoeirada que atrai cada vez mais público.

O empresário Gustavo Jacob, proprietário das casas Lord Pub, Jack Rock Bar e Circus, e idealizador do Circuito do Rock, conta que passaram mais de 150 bandas covers pelas três casas desde 2003, como as veteranas Led III (Led Zeppelin), Seu Madruga (AC/DC), Lurex (Queen), U2 Cover e as reconhecidas Hocus Pocus (Beatles) e Ummagumma (Pink Floyd). “Quando começamos, praticamente não tinham covers. Colocamos o Velotrol para tocar com outra banda, tentando segurar a programação. Hoje, temos sempre casas cheias, por volta de 500 pessoas por show. Parece que as pessoas se tocaram que bandas como Kiss e Led Zeppelin não vão tocar no Brasil mais. Ou seja, há uma demanda como nunca houve por cover”, diz.

Formada em 1982, a It’s Only Rolling Stones é a banda cover mais antiga da capital e só trocou o guitarrista e o tecladista em mais de 30 anos de estrada. No currículo, eles podem se gabar de terem tido shows abertos por Skank e Jota Quest no extinto Expresso Canadá, na avenida dos Andradas, na década de 1980, além de terem marcado presença em festivais onde Robert Plant e John Mayer também deram canja. Hoje, a banda faz até dois shows por semana e não se arrepende de ter optado pelo cover. “Chegamos a tocar na rádio, ainda temos a banda ‘Serpente’, autoral, mas o cover é minha paixão mesmo. Hoje, prefiro conciliar meu trabalho na Assembleia com os shows, e dá para fazer direitinho. Tem gente que espera a semana pra ver a gente tocar Stones”, diz o vocalista Keta.

Expert em covers, o músico Paulo Henrique integra as bandas Kiss Alive e Made in Iron – covers de Kiss e Iron Maden, respectivamente – sem pretensão de ganhar dinheiro. Por isso, ele também dá aulas de guitarra, violão, ukelele e outros instrumentos de cordas para pagar as contas. Ele diz ter investido mais de R$ 20 mil até hoje com aluguel de equipamentos, compra de roupas, guitarras e viagens para tocar canções de seus ídolos.

“Foi sempre um perrengue e uma faca de dois gumes: de um lado, público querendo ouvir sucessos que nunca ouvirão ao vivo, a criação de um circuito cover na cidade e tudo o mais. Do outro, a gente precisando sobreviver e sem conseguir se bancar só com isso. É a paixão mesmo que faz a gente subir no palco e ficar depois do show tirando fotos com fãs”, afirma Paulo Henrique.

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