“Filósofo, não. Eu sou humano, não um personagem”

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Performático. No palco, Criolo deixa a timidez assumida de lado
lais aranha/divulgação
Performático. No palco, Criolo deixa a timidez assumida de lado

Criolo pode ter a voz mansa, mas nunca perde o feeling ácido de ironizar, confundir, distrair e dissecar conceitos da vida moderna por aí. Quando eleva o timbre vocal, quase sempre é por indignação. “É difícil eu ficar nervoso, mas tem coisas que me tiram do sério, apesar da minha tranquilidade: imagina um garçom expulsar um amigo seu de um restaurante porque ele é negro. Eu também sou. Todo mundo é. Cacete...”, diz em decibéis crescentes. Em recente turnê do álbum “Convoque Seu Buda”, o artista conversou com o Magazine sobre a influência da mãe benzedeira e do pai metalúrgico em suas composições, sua relação com o mercado fonográfico e o susto que levou ao descobrir que havia virado piada na internet após dar uma entrevista ao ator e amigo Lázaro Ramos, no programa “Espelho”, do Canal Brasil.

Em primeiro lugar, porque convocar o seu Buda? Tem a ver com uma intenção de algo positivo. O buda se manifesta de várias formas. Num país onde existem tantas coisas erradas acontecendo, com um dia a dia muito massacrante e maçante, que machuca a alma das pessoas, nos cabe respirar fundo e não perder a esperança na humanidade. Eu tenho essa esperança e não quero perdê-la. Qual foi o espírito da gravação de “Convoque Seu Buda”? Recebeu convites de gravadoras? Recebi alguns convites, mas recusei. Tenho meu selo, não me interessou a ideia de empresariar meu som. E foi louco. Ficamos mais de dez horas por dia dentro estúdio El Rocha, na zona Oeste de São Paulo. Lá aconteceu a magia. O Daniel (Ganjaman) e o Marcelo (Cabral) vibraram alto demais e foram os caras que me disseram que isso estava funcionando, aquilo não. Fora o instrumental, dos que mais me agradaram nos discos que fiz. A percussão pesada do Maurício Badé, a bateria do Sérgio Machado bem à vontade e a guitarra ninja do Guilherme Held – ele fez coisas inacreditáveis desde a (canção) “Cóccix-Ência”. No álbum, você menciona Jitsu, Oxalá, Shiva... Sem falar dos batuques e tudo mais. É religioso? Minha mãe foi benzedeira por dez anos e é uma mulher de muita fé – eu tenho a minha fé, mas independente do credo de cada um. Eu sou bisneto de escravos, meu avó era estivador no porto de Fortaleza, meu pai metalúrgico. Isso influenciou as minhas canções da forma mais forte que alguém poderia ser tocado: vi de perto as coisas que eu canto, e elas correm no meu sangue. Lembro de acordar para ir para a feira às 4h30, às vezes ia batucando um samba do Bezerra porque minha mãe dizia que isso fazia a caminhada ser mais rápida. No ano passado você virou assunto na internet pela entrevista dada ao Lázaro Ramos. Como vê a situação toda hoje? Fiz a música “Cartão de Visita” por isso. Nela eu pergunto ao meu amigo, mais que um ator, que me entrevistou: ‘Lázaro, alguém nos ajude a entender’, baseado nas piadas alheias. Pô, de repente eu acordei e meu vídeo era viral na internet um ano depois de ele ter saído. As pessoas dizendo que estava maluco, não falava coisa com coisa. Pra mim ficaram duas lições: a primeira é a de que houve um recorte de tudo o que eu disse para gerar as piadas, o que é um trabalho intelectual e artístico que deve se reconhecido – independente da índole. A segunda é que eu preciso, cada vez mais, me preocupar em como a sociedade enxerga seus problemas. Agora, esse papo de filósofo... Sério. Filósofo, não. Eu sou humano, não um personagem.

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