Brincar é remédio

Câncer infantil: especialistas e voluntários falam da importância do lúdico

iG Minas Gerais | Jessica Almeida |

Crianças da Fundação Sara: hora da brincadeira
JOAO GODINHO / O TEMPO
Crianças da Fundação Sara: hora da brincadeira

No início do mês de novembro, a oncopediatra Eliana Cavacami abriu mão da vaidade e raspou seus cabelos. Num ato solidário, a médica quis trazer um pouco de leveza para a dura realidade de seus pequenos pacientes que enfrentam o tratamento do câncer. “Fiz para mostrá-los que somos iguais e que assim como o meu cabelo vai crescer, o deles também vai”, justifica. “A questão do ficar careca é sempre algo que os preocupa, então, foi uma maneira de dizê-los que é temporário. Uma das coisas que a doença faz é nos ensinar sobre valores e o cabelo não tem tanto valor, podemos superar numa boa”.

Iniciativas como a de Eliana não são prescritas no tratamento clínico, mas podem ser vitais no enfrentamento ao câncer em crianças e adolescentes. A doença é a que mais mata crianças no Brasil e a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) é que cerca de 12 mil novos casos surjam por ano no país. Solidariedade, afeto, atenção, cuidado, apoio familiar e convívio social são tão fundamentais quanto os medicamentos e tornam o difícil processo menos doloroso. Neste contexto, o trabalho de voluntários é uma preciosa contribuição. Por isso, além da conscientização sobre a importância do diagnóstico precoce da doença, a campanha Novembro Dourado e o Dia Nacional de Combate ao Câncer Infantil, celebrado neste domingo (23), jogam luz ao fato de que pequenas atitudes podem ser poderosos remédios. O simples brincar é um deles, como aponta uma pesquisa realizada na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, que indica que a brincadeira faz com que as crianças compreendam melhor seu estado de saúde, bem como o tratamento que vão enfrentar. Segundo a pesquisadora responsável pelo estudo, a terapeuta ocupacional Nathália Garcia-Schinzari, brincar de faz de conta ajuda na diminuição da ansiedade, na suavização de alguns efeitos colaterais da quimioterapia e no alívio da dor. “É fundamental que as crianças doentes consigam expressar seus sentimentos, medos, dúvidas e sua capacidade de enfrentar os problemas e as dificuldades da vida e, por meio do brincar de faz de conta, isso se torna possível”, diz ela, que desenvolveu seu estudo com crianças diagnosticadas com câncer com idade entre 4 e 7 anos. E isso é nitidamente confirmado pela voluntária da Fundação Sara Albuquerque Costa, de apoio à criança com câncer, Vera Gouveia, 56. “Às vezes, a criança chega da quimioterapia amuada, indisposta, mas se você se propõe a brincar ela se anima, muda de humor e de repente está correndo, pulando. Isso ameniza o sofrimento”, diz. Muitas vezes, apenas a companhia para um bate -papo e um lanche gostoso também podem mudar um dia ruim. Foi o que a analista de comunicação Camila Correa, 23, fez pelo garoto Zamorano Miranda de Souza, no pouco tempo em que conviveu com ele. Desde o mês de maio, ela fazia visitas semanais ao menino, a quem conheceu através de uma amiga, e se propunha a realizar pequenos desejos dele. Na maioria das vezes, coisas como cachorro-quente ou pizza – estava enjoado da comida do hospital. Mas, um dia, Zamorano pediu uma camisa de seu ídolo: o goleiro Fábio, do Cruzeiro. Mesmo sendo fanática pelo Atlético, Camila aceitou a missão e não só providenciou o presente, como pediu a alguns amigos que fossem até a Toca da Raposa pegar um autógrafo. No fim das contas, Fábio até gravou um vídeo com uma mensagem para Zamorano. O menino infelizmente faleceu em setembro, aos 16 anos, mas nesses poucos meses sua vida teve um alento. “Ele se sentia muito sozinho no hospital quando só tinha contato com a mãe e os médicos. Eu acabei levando também meus pais, meu namorado, e quando a gente ia, ele se preocupava em se arrumar, estar bem disposto. Também era um alento para ele ter companhia para sua mãe, porque se preocupava em vê-la sozinha”, conta. “E eu, no fim das contas, aprendi com ele a ver valor nas coisas simples e a ter esperança apesar de tudo. Eu brincava que eu era a atleticana, mas ele é que acreditava”. Por uma rotina mais alegre Esse também é o papel da Equipe da Alegria, um grupo de voluntários da Fundação Sara, de apoio à criança com câncer. Eles promovem brincadeiras com os pequenos, sessões de cinema e a ‘passeioterapia’, que é quando eles têm a oportunidade de estar em outros ambientes que não o hospital ou a fundação. Segundo Evelyni Machado, psicóloga da fundação, as atividades são uma forma de reaproximá-las da rotina da qual foram bruscamente tiradas. “São momentos de distração, em que o foco é tirado da doença e conseguimos proporcionar uma rotina normal para eles, coisa que não podem ter sempre”, completa. Além de disponibilizar hospedagem, alimentação, transporte, exames e medicamentos, a Fundação Sara oferece amplo apoio social, pedagógico, psicológico, tanto para as crianças, quanto para suas famílias. Seja um voluntário você também Fundação Sara Albuquerque Você pode contribuir com o trabalho da fundação de duas formas: sendo contribuinte ou voluntário. No caso do voluntariado, há possibilidades para diversas atividades, desde o transporte das crianças até sua diversão. Para tanto, é necessário preencher um cadastro no site www.fundacaosara.org.br. Mais informações pelo telefone (31) 3284-7690. Casa de Apoio Aura Também contam com voluntários que doam talento, tempo e conhecimento. Para participar, é necessário preencher um cadastro no site aura.org.br. Mais informações pelos telefones (31) 3282-1128 e (31) 3282-1126. É possível também fazer doações financeiras. Informações no site ou pelo telefone (31) 3236-5900. CAMPANHA PRETENDE LANÇAR LUZ SOBRE TEMA Como padrinho do Novembro Dourado, o jogador de vôlei Serginho, do Sada Cruzeiro, tem, entre suas metas, alertar para o diagnóstico precoce do câncer infantojuvenil, um dos maiores desafios no combate à doença. A visibilidade que ele e outros padrinhos da Fundação Sara como os atleticanos Diego Tardelli e Leonardo Silva e os cruzeirenses William e Dagoberto têm é uma grande aliada pra que se tenha menos diagnósticos retardados da doença que, se detectada no início, tem uma taxa de cura de 80%. No caso dos adultos, existem medidas de prevenção, já que a maior parte dos casos de câncer têm origem em fatores de risco ambientais, como o tabagismo, o alcoolismo, o sedentarismo e a obesidade. Isso não se aplica aos casos de câncer infantil, uma vez que não seguem essa lógica. “Na criança e no adolescente, os tumores em geral são de origem embrionária, mais agressivos, de evolução mais rápida, muitas vezes em estágio já avançado no momento do diagnóstico”, explica o pediatra oncologista Joaquim Caetano Aguirre Neto. Porém, o fato de os sintomas mais frequentes, como dores de cabeça, náuseas, vômitos e alterações na forma de andar e na coordenação motora, poderem ser atribuídos a outras doenças, torna a suspeita do câncer secundária. “Por isso, os pais devem ficar atentos a febres que não passam, medicamentos que não surtem efeito e outros sinais (veja imagem). Sugerir o pedido de exames e, se for o caso, até mesmo trocar de médico”, explica Fernanda Araújo, gerente da assistência social Fundação Sara. É importante sensibilizar os pais, mas, principalmente, os próprios profissionais da saúde. “Muitas vezes, quem vai salvar a vida da criança não é o oncologista, mas o pediatra que vai ficar atento, vai perceber que o que ela tem não é uma dengue ou virose e vai pedir os exames específicos”, acrescenta. Além do engajamento pela conscientização do diagnóstico precoce, Serginho, com um bom padrinho, também atua em outras frentes. No último aniversário de sua filha Rafaela, que fez 6 anos este ano, o líbero fez um acordo com a menina: todos os anos, após o soprar de velinhas e ganhar muitos presentes, a pequena e ele filtrarão juntos seus brinquedos e selecionarão alguns deles, em bom estado, para doar para a Fundação Sara, que o jogador apoia há cerca de quatro anos. “Ela assimilou muito bem a ideia, apesar de ser tão nova. Estou tentando ensiná-la a enxergar o mundo e não só próprio o umbigo”, diz Serginho, que além disso se envolve com diversas campanhas da instituição e eventualmente encontra espaço na agenda de treinos e jogos para passar algumas horas lá, como voluntário. “Outro dia, passei lá e eles estavam tendo aula, desenhando, pintando. Eu entrei na brincadeira e foi uma lição para mim, que às vezes reclamo da vida por coisas bobas. Tenho certeza de que naquele momento, em que eu ou qualquer outra pessoa de fora está lá, eles não estão pensando na quimioterapia, na dureza de ter que sair de casa e nas tantas dificuldades que enfrentam”, afirma. Apoio à Família Além do apoio às crianças, o suporte aos pais do doente também é fundamental. O câncer infantil é uma doença que desestrutura toda a família, por isso a ajuda aos demais membros também é necessária. “Como muitas crianças vêm do interior se tratar em Belo Horizonte, existe uma ruptura na família. A mãe às vezes vêm deixando outros filhos e o marido para trás, muitas precisam deixar seus empregos e se a mãe se deixa desestruturar por todos esses problemas, isso se reflete na criança”, adverte Evelyni Machado, psicóloga da Fundação Sara. Por isso, é fundamental que as ações de acompanhamento abranjam também quem está em volta da criança. “Lá na fundação, por exemplo, temos um grupo de acompanhamento chamado Cuidando do Cuidador e os resultados são nítidos. Quando o acompanhante está seguro, a evolução da criança é mais rápida, inclusive clinicamente”, diz a psicóloga.

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