Trio feminino de garis faz história na capital

Primeiras mulheres a coletarem lixo em BH começaram a trabalhar neste mês

iG Minas Gerais | Camila Bastos |

Centro-Sul, 
Das 8h às 14h

, Karen, Viviane e Sinália
 (da esq. para a direita)
 percorrem 80 km por dia
NIDIN SANCHES / O TEMPO
Centro-Sul, Das 8h às 14h , Karen, Viviane e Sinália (da esq. para a direita) percorrem 80 km por dia

Sinália Ramos, 33, acorda às 5h, mas só sai de casa para trabalhar por volta das 7h, depois que os três filhos vão para a escola. De glitter nos olhos e batom cor-de-rosa, ela vai até o bairro Gameleira, na região Oeste da capital, onde sobe no caminhão de lixo de uma prestadora de serviços para a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) e começa o trabalho de coleta de resíduos da prefeitura. Ela e outras duas mulheres, que também assumiram o serviço no começo do mês, causam estranheza por onde passam.

“Sai daí, isso é trabalho de homem”, gritam de dentro de um carro que passa. “Dá vontade de falar um palavrão. É muito preconceito contra a mulher. Mas deixa, eles vão ver se a gente não consegue”, desafia Karen dos Santos, 18, a caçula da equipe. Ela conta que já viu uma senhora boquiaberta enquanto observava o trio trabalhar.

O TEMPO acompanhou um pouco da rotina dessas mulheres na tarde desta quinta. Elas correm, buscam os sacos amarelos da prefeitura, carregam entulho, recolhem madeira abandonada – tudo o que fazem as equipes masculinas. “Mas a gente capricha. Quando o saco plástico rasga, por exemplo, e o lixo se espalha todo pelo chão, a gente volta e varre tudo”, detalha Viviane de Souza, 33. Por todo o esforço físico que as atividades exigem, ela costuma chamar o trabalho de “academia ao ar livre”.

O trio conta que o estranhamento da profissão acontece nas ruas, mas houve apoio da família para encarar o desafio. “Tenho uma menina de 13 anos, e espero ser um exemplo para ela com esse trabalho”, diz Sinália. Sorrindo, ela diz que o que mais gosta na profissão é a sensação de liberdade quando sobe no caminhão.

Rotina. Das 8h às 14h, as três percorrem rota de aproximadamente 80 km, na região Centro-Sul, entre a região da Savassi, o centro e a área hospitalar. A função delas é recolher o lixo acumulado pelo serviço de varrição da SLU.

A rotina de trabalho não faz com que elas deixem de lado a vaidade. Na cabine do motorista, elas levam suas bolsas, cada uma com sua nécessaire cheia de produtos de maquiagem. Ainda na primeira semana de trabalho, enfrentaram três dias de chuva forte, mas nem o serviço nem o visual foram prejudicados por causa disso.

“Toda vez que (o serviço) dava um tempinho, a gente ia lá e retocava a maquiagem. Fazemos a mesma coisa quando o sol está muito forte: paramos um pouco, lavamos o rosto, passamos filtro solar e usamos maquiagem de novo”, diz Viviane.

Cantadas são frequentes Durante o momento que a reportagem de O TEMPO acompanhou o trabalho das garis – pouco mais de uma hora –, vários homens que passavam a pé ou de carro gritaram os mais variados gracejos para as três. Elas ignoraram e seguiram trabalhando. “A gente vai colocar eles no bolso”, brinca Sinália Ramos. Casadas, as três garantem que mantêm o foco no trabalho e nos elogios que recebem pela qualidade do serviço e pela coragem de buscar lugar em um mercado tipicamente masculino.

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