Viagem comigo mesma

iG Minas Gerais |

souzza rodrigo
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No último dia 1°, um pouco depois do meio-dia, postei um comunicado aos amigos no meu perfil do Facebook, talvez em uma tentativa de engrossar a torcida já formada pelos mais próximos e devidamente acomodada no bolsinho ao lado do passaporte: “Quatro décadas pra vontade, coragem e oportunidade se encontrarem na mesma esquina. E assim, começa minha primeira viagem comigo mesma”. Uma hora depois, embarquei pra Cidade do México levando mais expectativa do que medo, mais dicas de gente querida do que roupas, mais marcadores no mapa virtual do que certezas. A decisão de encarar uma viagem sozinha veio um ano antes, em uma conversa com o marido sobre não deixar de incluir em nossos projetos o frio na barriga que só acontece no “pela primeira vez”. Ele, que sempre foi uma ótima companhia em qualquer destino, do tipo que não vacila em entrar em um ônibus no meio do deserto sem saber direito se vai chegar aonde pretende, foi o primeiro a me encorajar. Nesse caso, interessava aos dois descobrir que tipo de viajante eu seria sem ter o par ao lado. Apesar de, invariavelmente, eu ser a responsável pelo planejamento (às vezes insano, dada a quantidade de filhos) das nossas escapadelas, decidindo desde a hospedagem até o cardápio, a ousadia e a cara-de-pau do Márcio sempre foram nosso bote salva-vidas. Com a vontade garantida, a oportunidade foi dar as caras na semana de folga conquistada depois do trabalho duro e intenso com as duas grandes coberturas jornalísticas deste ano, Copa do Mundo e eleições. Teria cinco dias de ócio que não coincidiam nem com o recreio do marido, nem da cria. Cinco dias meus, que emendados com o fim de semana, seriam perfeitos para colocar em prática a decisão do segundo parágrafo. Então, só faltava encontrar a coragem. Confesso que até colocar a bunda na cadeira em uma tarde de sábado e finalmente comprar as benditas passagens, amarelei várias vezes, colecionei desculpas pouco convincentes, duvidei se seria valente o suficiente. Mas como escrevi na última coluna, apelei para o “vai com medo mesmo”. E fui. E foi massa. Demorei um dia e meio para me livrar das viagens que esperavam que eu fizesse para realmente estar solo, e foi este o momento mais sobrenatural de todo o roteiro (por um acaso, aconteceu justamente quando estava no alto do Templo da Lua). Viajar sozinha é um atrevimento. Longe do que nos é habitual e íntimo, acabamos nos tornando um pouco estrangeiros de nós mesmos. É a oportunidade certa para alargar os espaços internos, ignorar medos e tabus, minimizar preconceitos, desde que se esteja aberto e receptivo para o que quer que seja. E, sim, soy muy valiente.

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