O erotismo nosso de cada dia

Deborah Colker se inspira em romance de Joseph Kessel, “A Bela da Tarde”, para discutir a sexualidade na atualidade

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Tabu. Mesmo escrita na década de 1920, “Belle” traz temática controversa e atual
Flávio colker/divulgação
Tabu. Mesmo escrita na década de 1920, “Belle” traz temática controversa e atual

Em tempos em que sexualidade que fuja aos padrões heteronormativos e monogâmico é tratada, por boa parte da sociedade, como escândalo ou tabu, discutir o erotismo não é das tarefas mais fáceis. Agradar e/ou ser palatável não parece ser a preocupação da coreógrafa Deborah Colker, que chega a Belo Horizonte, neste fim de semana, para apresentar seu espetáculo mais recente: “Belle”, no Palácio das Artes.

“O erotismo, para mim, é intrínseco à condição humana, metáfora e representação de nossos sentidos, percepções e de nossos impulsos mais primitivos. E é impressionante que, em pleno século XXI, numa sociedade que já passou pela revolução feminista e por tantas transformações culturais, sociais e políticas, o sexo ainda seja um tabu. Estamos discutindo o aborto, o casamento gay, mas esse é um fato notório. O sexo continua a ser tratado com hipocrisia e discriminação. Ainda não conseguimos lidar com naturalidade com nosso próprio erotismo – um conceito que a falsa moral burguesa insiste em confundir com vulgaridade e, até, com pornografia”, comenta Colker.

A peça toma o clássico “Belle de Jour” (“A Bela da Tarde”), de Joseph Kessel, como inspiração. O romance, de 1928, mostra Séverine, uma mulher que vive uma vida dupla: de manhã e à noite, rotina confortável no seio da sociedade parisiense; à tarde, ela se transforma em Belle e leva uma vida luxuriosa cercada pelos prazeres de um bordel. “O que mais me fascina nesse livro de Kessel é o embate entre a razão e o instinto, a alma e a carne, o amor e o sexo, personificado na figura da protagonista. Séverine é uma mulher que alcançou tudo o que a sociedade projeta para uma mulher burguesa: um bom casamento, uma condição social, amor. Seria supostamente uma mulher realizada. Mas há um vazio nela, algo muito profundo, que ela precisa suprir. E ela cede ao chamado implacável do instinto. Tem a coragem de fazer a travessia para um outro mundo. É Belle à tarde em um bordel e Séverine nas outras horas do dia. O livro é um mergulho profundo na alma dessa mulher e, por meio dela, traz à tona uma dicotomia comum a todos nós – entre a persona social e suas pulsões mais primitivas, recônditas e inconfessáveis”, pondera a coreógrafa.

Para aguçar a dicotomia entre as duas facetas de uma mesma personagem, Colker, ao contrário do romance original e de Luis Buñuel – que fez uma versão cinematográfica, tendo Catherine Deneuve, como protagonista, em 1967 – escolheu duas bailarinas. “Materializar no palco a existência do duplo de Séverine é a grande assinatura da minha adaptação livre de ‘Belle de Jour’. Para mim, foi necessário encarnar esse duplo em outra bailarina, e trabalhar uma como o oposto quase antagônico da outra. A minha Séverine é alta, controlada, fria, sistemática. Enquanto Belle é baixa, vulcânica, intensa – um animal”, relata a artista.

Feminismo. Em tempos em que o sufrágio da sexualidade feminina ainda é tratado com reservas, levar para o palco uma mulher que, insatisfeita com sua rotina sexual “papai e mamãe”, busca os prazeres de uma vida mais libertina e libertária flerta diretamente com movimentos que evocam e alçam bandeiras feministas, como a Marcha das Vadias.

Para Colker, o simples fato de levar o romance de Kessel à cena já é uma demarcação de território. “Acho que a escolha do texto e das discussões que o livro traz como ponto de partida para a construção de um espetáculo são, por si só, uma posição com relação a esse assunto. Diferente do homem, a mulher precisou, desde sempre, agir por trás dos panos. Contada no início do século XX, essa história não teria o mesmo impacto se tratasse de um homem burguês que passa a frequentar um bordel. O divórcio, no início do século XX, era muito mais terrível para uma mulher do que para um homem. E eu acho que o machismo está aí, sim. E se alguém se incomoda com esse espetáculo, isso se deve à cultura machista, que ainda trata o erotismo como um tema que deve permanecer nos subterrâneos, confinado aos inferninhos ou às ‘casas de saliência’, como diria Ancelmo Gois”, finaliza a diretora.

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