Difícil de explicar

iG Minas Gerais |

Em alguns dias, tenho vergonha do país em que vivemos. É triste, mas real. Foi assim em um hospital privado nesta semana. Não pelo longo tempo na fila, o que já é comum. Na verdade, foi, no mínimo, embaraçoso ser testemunha do diálogo entre uma mãe e um filho na sala de espera. O garoto me pareceu bem esperto. Imagino que tivesse 10 anos, ou quase isso, a julgar pela estatura. Olhos atentos ao celular. Rodou por vários sites. A mulher, trinta e tantos anos, eu suponho, folheava uma revista quando ele perguntou: – Mãe, o que é propina? Ela fechou a revista e numa linguagem bem simples respondeu com uma metáfora: – É molhar a mão de alguém. Dar um dinheiro em troca de um favor, entende? É essa picaretagem danana que anda tendo no país. Pensei em interferir, tentar ajudá-la. Afinal, ela deveria ser mais clara com o garoto. Dar exemplos da tal picaretagem à qual se referia. Mas um senhor foi mais rápido e disse, quase como um dicionário: – Propina é o dinheiro que alguém dá ou recebe de forma ilegal. Pode ser chamado também de suborno. O homem sorriu e se levantou. Deu um tapinha nas costas do menino e disse: “Garoto curioso, deve ser inteligente”. O menino, ainda não satisfeito (e com razão), continuou: – Entendi mais ou menos. Mas, mãe, o que é Petrobras? O que é proprina da Petrobras? E por que todo site que eu entro só está falando disso? Tô achando um saco! Em pensamento, fui obrigada a concordar com o menino. Se é uma overdose para mim, que estou “devorando” todas as notícias sobre a corrupção na empresa, imagina pra quem não está tão interessado. Eu estou penando para decorar nomes dos presos, empresários, lobistas e empresas envolvidos na tal operação Lava Jato, da Polícia Federal. A cabeça de muita gente deve estar dando um nó. É muita informação, muita corrupção. Difícil mesmo de acompanhar. Desejei explicar ao garoto que a Petrobras é uma empresa de capital aberto. Ou seja, qualquer brasileiro (ou estrangeiro) pode ser sócio desde que tenha dinheiro para comprar ações na Bolsa de Valores. Quis completar informando que o governo é o “chefe” (leia-se o dono da maior parte das ações). Mas acho que ele queria mesmo entender que a empresa da qual tanto se fala é a mesma que tira petróleo de nosso litoral, vende gasolina, óleo diesel, gás e outras formas de energia. Achei melhor não entrar. Desviei a atenção. Fiz cara de paisagem. Na revolta em que estava não era eu a pessoa mais indicada para dizer tudo aquilo ao menino. A explicação seria acompanhada pela “bomba” de que não se faz obra sem pagar propina a político, de que no Brasil tudo é superfaturado, de que não há santos no governo nem na oposição... Enfim, era melhor não me intrometer. Não soube como a mãe se virou nas respostas. A médica chamou o menino. Naquele momento, a mulher sentiu-se aliviada. Talvez não quisesse (ou pudesse) aprofundar o tema. Naquele dia, fiquei triste pelo garoto, pelo país em que vivemos, por tanta roubalheira virar clichê. No dia seguinte, as perguntas do garoto me fizeram voltar a refletir e até trouxeram certa esperança. Lembrei-me que, quando era criança, já tinha ouvido falar de propina, suborno e corrupção. Talvez, fosse menos curiosa. Ou quem sabe era a falta da internet. A diferença é que o menino, tão jovem, já viu peixe grande ser preso. Para mim, é a primeira vez. No tempo dele, grandes empresas são investigadas. Isso tem que aparecer como um avanço. Lento, mas real. Esse resquício de esperança se alterna com os dias ruins. Tomara que as coisas mudem, menino. Tomara.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave