Poesia embebida em música

Thiago E. lança o CD de poemas musicados “Cabeça de Sol em Cima do Trem”, um dos melhores lançamentos deste ano

iG Minas Gerais |

Dupla. Thiago E. e Jan Pablo, que trabalharam juntos na criação de “Cabeça de Sol em Cima de Trem”
acrobata/divulgação
Dupla. Thiago E. e Jan Pablo, que trabalharam juntos na criação de “Cabeça de Sol em Cima de Trem”

SÃO PAULO. Da terra de Torquato Neto, o Piauí, desembarcou a “navilouca” de um dos mais inquietos novos poetas da atualidade: Thiago E. Ele não trabalha com a ideia de limitação, de fronteiras: faz música que declama, faz poemas que canta, faz uma revista de literatura (“Acrobata”) e busca a interlocução com os artistas do seu tempo. Um belo dia, Thiago chegou a São Paulo e tocou a campainha da casa de Augusto de Campos, uma de suas influências. Algum tempo depois, saiu-se com um livro e esse CD de poemas musicados, ambos batizados de “Cabeça de Sol em Cima do Trem” (o disco tem música ambiente de Jan Pablo). 

Fiel à ideia de transcriação, transposição, transfusão, Thiago acabou gestando uma das melhores obras do pop neste último ano. Professor de colégios públicos, produtor, performer, vocalista e compositor da banda Validuaté, também assume a persona de andarilho da poesia que pode ser encontrado em feiras literárias com um livro numa mão e um celular com bases musicais na outra.

Transmissões radiofônicas, discursos, ecos, um filme de Woody Allen: tudo é matéria-prima da música de Thiago E. Há brutal lirismo, como em Sopro do Coração (“Esse coração agora/Se torna uma boca vermelha/Quer lamber o lado de fora/Quer fazer o que der na telha”). Há trocadilhos pop em profusão: “É o maiakóvski que mexe com a minha cabeça e me deixa assim”). Bases de guitarra e uma brisa de jazz: tudo pode emoldurar seus poemas.

No livro que é o espelho da literatura cantada de Thiago E., lançado pela editora Corsário, o autor trabalha um concretismo de suave leveza e notável presença de espírito. Jorge Mautner tem um depoimento no disco. Ele conheceu Thiago quando foi, com Nelson Jacobina, fazer um show no Teatro Luso Africano, em Teresina. Thiago o levou para gravar em seu estúdio. “É impossível falar do Piauí sem a presença de Torquato Neto; no enorme turbilhão de criatividade da obra de Thiago se nota também a presença de Torquato e muito também a influência dos irmãos Campos”, diz Mautner. Mais ainda: reflete em sua sonoridade, sua poesia, sua interpretação, seu ativismo cultural, toda uma novidade do Brasil do século XXI, e estão presentes também as muitas culturas do imenso Estado do Piauí, que inclui também uma imensa parte amazônica”, afirmou o músico.

Já Arnaldo Antunes pirou. “‘Cabeça de Sol’ é muito bom! Fazia tempo que eu não curtia assim um trabalho de poesia. Palavra-lâmina afiada em voz. Sua leitura, clara e expressiva, junto aos variados experimentos sonoros do Jan Pablo, resulta em quase-canções, que vitalizam os já surpreendentes poemas. Foi uma descoberta rara, tem muito pouca gente explorando essa seara com tanta originalidade”.

Assim como outros poetas dos novos tempos, como Ademir Assunção e Rodrigo Garcia Lopes, Thiago E. corre o Brasil com sua poesia embebida de música, mas, como Drummond e Borges, carrega seu fardo na seara da sobrevivência real. Na Teresina de calor saariano com vento zero, ele se investe do trampo burocrático e rala num escritório (presta serviços ao Ministério Público do Estado do Piauí).

Com o grupo Academia Onírica, editou a revista “AO” (2010 a 2012). Edita a coluna “Intacta Retina”, no jornal “O Dia”, aos domingos, publicando poesia, prosa, artes plásticas de diversos artistas, amigos e cúmplices.

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