Diretor israelense alia autobiografia e discurso político

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |


Avi Mograbi ministra curso em Belo Horizonte na próxima semana
Filmes do Quintal
Avi Mograbi ministra curso em Belo Horizonte na próxima semana

Homenageado com uma retrospectiva nesta edição do Forumdoc, Avi Mograbi nasceu em uma família “cinematográfica”. O pai era dono de um dos maiores cinemas de Tel Aviv, aberto em 1930. “Foi onde eu cresci, então desde a adolescência era muito claro para mim que eu queria ser um cineasta”, conta o israelense. Mas quando veio a hora de ir para a universidade, o pai não aceitou que ele estudasse cinema.

“Daí, me rebelei e fui cursar filosofia, com enfoque em belas artes”, recorda. Essa rebeldia se tornaria a grande marca de sua filmografia, que teria início pouco depois que ele se formou na faculdade e a velha paixão voltou mais forte que nunca. “Era o que eu queria fazer, então comecei a trabalhar como produtor, gerente de produção, assistente de direção, até passar a fazer meus próprios filmes”, explica.

O primeiro curta, “Gerush”, veio em 1989, e o primeiro longa, “A Reconstituição”, em 1994. A partir daí, ele foi galgando com cada nova obra os degraus dos principais festivais de cinema europeus, chegando a Berlim com “Agosto, Antes da Explosão”, em 2002, e Rotterdam com “Vingue Tudo, Mas Deixe Um dos Meus Olhos”, de 2005.

Com forte influências de cineastas como Chris Marker e Frederick Wiseman, o cinema de Mograbi faz um retrato altamente pessoal e contundente do conflito no Oriente Médio, um discurso feroz contra a ocupação israelense de territórios palestinos. “Ele alia questões formais de vanguarda a elementos autobiográficos para tratar de temas sociais e políticos”, descreve a coordenadora do Forumdoc Júnia Torres.

Questionado se a posição política de seus filmes o coloca em uma posição delicada em Israel, Mograbi explica em três frases as contradições de seu país, que ele retrata nos longas. “Israel é um lugar muito estranho: uma ditadura para os palestinos ocupados e uma democracia para nós, judeus. Tenho total liberdade de expressão, a maior punição que os israelenses me aplicam é ignorarem o que eu digo”, filosofa o diretor, que muitas vezes financia suas produções com fundações ligadas ao governo.

Isso não quer dizer que o cineasta não lide com sérias questões éticas em seu trabalho. Em “Z32”, de 2008, um militar israelense responsável pelo extermínio de dois policiais palestinos concordou em ser entrevistado por Mograbi, desde que não fosse identificado. “Resolvi isso não desfigurando a imagem e alterando o áudio, mas quando fiz isso, percebi que estava me tornando cúmplice de assassinato”, revela o diretor.

Ao se dar conta disso, o dilema se tornou o tema central de “Z32”, com o israelense colocando em questão as escolhas morais que um cineasta encara diariamente no seu fazer cinematográfico. É essa consciência autobiográfica e metalinguística do próprio ofício que faz o diretor ser apontado no mundo inteiro como um dos nomes mais instigantes trabalhando no documentário hoje. Prova disso é que, além do Forumdoc, Mograbi também é objeto de uma instalação na Bienal de São Paulo.

É esse processo, que coloca em xeque o documentário como gênero e faz das suas encenações e ferramentas o próprio tema da obra, que o israelense irá abordar no curso que o Forumdoc oferece entre 24 e 28 de novembro no Palácio das Artes. “Ao desconstruir o discurso israelense, eu também estou desconstruindo meu discurso cinematográfico. Não existe separação entre privado e político na minha obra. Todos os meus filmes começam com histórias pessoais que eventualmente se tornam políticas”, propõe.

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