Do amor, morte e outras drogas

Longa de estreia de Carolina Jabor venceu prêmio do público em Paulínia

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Musa. Secco brigou para viver o papel de Judite, junkie soropositiva que se envolve com um adolescente
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Musa. Secco brigou para viver o papel de Judite, junkie soropositiva que se envolve com um adolescente

A história de Deborah Secco com o conto “Frontal com Fanta” – do qual “Boa Sorte”, que entra em pré-estreia hoje, é adaptado – começou em 2008. Ela estava no Rio Grande do Sul gravando “Decamerão” e foi visitar a casa de Jorge Furtado, diretor da série e autor do conto. Lá, ela foi apresentada à coleção de obras de arte do cineasta e ficou fascinada com um quadro chamado “10 Mil Corações”.

“Não fui criada em uma família muito artística, nem ligada a esse tipo de cultura mais refinada, e acho que ali foi a primeira vez que entendi as diversas manifestações da arte. O quadro me dizia muitas coisas”, ela recorda. A atriz quis comprar a pintura, mas Furtado disse que não era uma opção. Em troca, ele deu a ela seu livro “Tarja Preta”. “Frontal com Fanta” foi o primeiro conto dele que Secco leu.

“Na primeira cena, eu já estava me debulhando em lágrimas”, confessa. Três anos depois, uma amiga lhe contou durante um jantar que uma outra amiga, Carolina, estava adaptando a história para o cinema. “Eu falei ‘para! Não vai fazer esse filme, ele é meu. Aquele momento, aquelas duas horas que eu fiquei ali entendendo mais de arte. Pelo amor de Deus, me dá o telefone dela agora’”, revela.

O resto é história. A Carolina em questão era Carolina Jabor. O filme viria a ser “Boa Sorte”, seu primeiro longa-metragem depois de muitos curtas e videoclipes. A produção estreou no último Paulínia Film Festival, onde ganhou os prêmios de melhor filme segundo o júri popular e melhor direção de arte. E Secco perseguiu Jabor até conseguir o papel de Judite, junkie soropositiva internada em uma clínica de reabilitação à espera da morte.

Na verdade, o protagonista é João (João Pedro Zappa), adolescente internado na mesma clínica pelos pais após uma overdose de Frontal com Fanta. Lá, ele se apaixona por Judite e os dois iniciam um romance disfuncional que parece finalmente trazer vida às suas existências anestesiadas por remédios.

A história de amadurecimento e rito de passagem tem o humor juvenil associado a temas inesperados como morte e vício, típicos dos textos de Furtado, que também assina a adaptação com o filho Pedro Furtado. E assim como em “Decamerão” e “Meu Tio Matou um Cara”, Secco encontra um encaixe perfeito para sua persona como a musa que é algo mais do que a simples imagem idealizada pelo desejo masculino.

“O que me fascinou na Judite é essa mulher tão antagonística, tão cheia de opostos dentro dela – vida e morte, conhece o amor e se despede dele, tem uma alegria e uma vontade de viver, mas aceita que vai morrer”, analisa a atriz. E a grande falha de “Boa Sorte” é não enxergar e abraçar esses opostos com a mesma coragem de Secco.

Jabor foca muito na história de amor e se esquece de criar um universo verossímil em torno dela. A clínica do filme parece mais uma colônia de férias, em que os personagens fumam, bebem, transam, dão festas e fogem quando querem, sem nenhuma supervisão. Algo mais “Sonho de Verão” do que “Um Estranho no Ninho”.

Esse tratamento cosmético do vício e doenças terminais fez o filme ser comparado em Paulínia a “A Culpa É das Estrelas”, da mesma distribuidora Imagem Filmes. Algo que não incomoda Secco.

“Adoro esse tipo de romance como espectadora. Nenhum dos dois ali conhece o amor e eles se fiam nessa busca e nessa descoberta”, opina. Mas por mais que a química da atriz com Zappa funcione, o filme se destaca mesmo por um elenco de peso que inclui Fernanda Montenegro, Cássia Kis Magro e Enrique Diaz em papéis que poderiam ser melhor explorados.

Secco, por sua vez, continua em busca de desafios. Após “Boa Sorte”, ela já tem dois longas prontos para estrear, “Obra-prima” e “O Troco”, para o qual engordou 20kg. E não descarta a possibilidade de viver Joelma no filme sobre o “Calypso”, caso os produtores consigam o financiamento. Porque ela pode ter se apaixonado por arte, mas não perdeu a verve popular.

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