Alguém sabia e Manoel sabiá

iG Minas Gerais |

Quando alguém começa a tomar remédios receitados por médicos bem mais jovens, com indicação de uso permanente, ou seja, para o resto da vida, é sinal de que começa a descer o morro... Apesar de, às vezes, resistir, já não consigo controlar a descida, cada vez mais escorregadia. Remédio é um remendo da vida, e eu detesto vida remendada, em todos os sentidos. Estou conversando sobre o desviver porque estou querendo me convencer de que tudo isso é normal, pois até o insubstituível e querido Manoel de Barros morreu, ele que era, até quarta-feira passada, o maior poeta vivo de nossa brasilidade. Manoel, um pantaneiro “retado”, morreu... Provavelmente, pela poesia de sua existência, engasgado com versos que continham toda a alegria e ternura dos pássaros do Pantanal. Formava, pelo estilo enviesado, para meu devaneio, junto com Castro Alves e Mário Quintana, a trinca de ouro da nossa mais pura sensibilidade. Tomei conhecimento dos seus sentimentos quando li qualquer coisa de sua autoria, que contava em versos a ideia maluca de seu avô, que queria engravidar uma árvore... Às vezes fico em dúvida... Quem é a morte para matar e levar gente desse jaez? Sei não, mas Manoel não era um qualquer... Quem sabe um pássaro? Talvez aquele pássaro cria do poeta sertanejo do Norte mineiro Luiz de Paula, pássaro de penas da cor do vento, que voa de asas leves. “Quem viu o pássaro do tempo? Lá vai o tempo levando/ o rosto moço que eu tinha/ e o jeito descuidado/ de rir das coisas da vida”. Às vezes penso em pecar por inveja ou ciúme... Por que não fui eu que escrevi isso se minha alma é assim também? Mas está em boas mãos, me consolo. O leitor que costuma me ler aqui às quartas-feiras deve estar estranhando essa minha conversa de lamento, de ternura e saudade, uma vez que ultimamente não tenho tido outro assunto que não seja falar mal dos petralhas. Todavia, como você, leitor, eu não sou só matéria, sou alma também e às vezes penso até em desencarnar “um pouquinho”, em horas marcadas, para, apartado rapidinho do corpo, suado com esse calor, encontrar pessoas a quem amei na vida, como papai e mamãe... E também com Quintana, a quem pediria para poetar para mim sobre os mundos atuais, o dele e o meu, e saber da chegada de Manoel de Barros nas terras do Além. Gosto muito deles, mas queria falar um pouco do pantaneiro. Quem, não fosse Manoel, que nasceu pros pés e pelo avesso como filho de Biú (só o salinense sabe do que falo), teria escrito “O Livro sobre o Nada”? Ou “Concerto a Céu Aberto para Solos de Ave”? Ou ainda “Retrato do Artista quando Coisa”? Manoel manifestou vontade de escovar palavras, palavras que usava para compor seus silêncios. Entendia o sotaque das águas e dava mais respeito às coisas desimportantes, foi um apanhador de desperdícios... Manoel poetou o mundo, aqui viveu e desviveu, e desmorrerá no Além. Com Deus, Manoel dos pântanos...

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