Casa recortada por frestas

Márcia Charnizon retoma trabalho autoral com “Memorabilia da Casa do Azevedo”, livro que ela lança hoje

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Convivência. Ensaio baseado no cotidiano de duas mulheres, Luisa e Ávila (foto), gera novo trabalho da fotógrafa mineira
Marcia Charnizon
Convivência. Ensaio baseado no cotidiano de duas mulheres, Luisa e Ávila (foto), gera novo trabalho da fotógrafa mineira

Quando entrou pela primeira vez na casa de dona Luisa, que vivia com a filha Ávila, numa região próxima ao município de Moeda (MG), Márcia Charnizon recorda ter feito a visita no fim da tarde e predominava no ambiente uma penumbra. A pouca luz, que, de acordo com ela, entrava por frestas, marcou a sua percepção do local e da vida daquelas duas mulheres retratadas por ela no livro “Memorabilia da Casa do Azevedo”.

O título, contemplado no ano passado pelo prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, será lançado hoje por ela no Memorial Minas Gerais Vale, para convidados, e, no dia 29, no Café com Letras, em evento aberto ao público. Centrada em fotografias, a obra traz também texto de Beatriz Magalhães e apresenta um pouco do cotidiano dessas duas mulheres.

Charnizon conta que as conheceu em 2010, em razão de outro projeto feito a convite de uma amiga psicanalista. Logo que encontrou Luisa e Ávila ela se viu atraída a conhecer melhor as duas e manteve com ambas um diálogo que dura até o presente.

“Naquele ano eu estava na região de Azevedo, fotografando algumas casas e me deparei com a delas. Aos poucos, eu fiquei muito surpresa e vi alguns pontos em comum entre a gente. Eu me identifiquei com os medos delas, com a vaidade feminina que manifestavam, especialmente Ávila”, diz Márcia Charnizon.

A artista lembra que, ao retornar um dia, encontrou Ávila, inclusive, um pouco aflita. Isso a fez perguntar por que chorava. A mulher de mais de 60 anos desabafou dizendo que estava angustiada por ser sozinha.

“Ora, eu fiquei pensando que sozinhos somos todos nós, na verdade, dentro de nossas próprias realidades. Eu notei que, apesar de ela viver num espaço mais rural e eu num ambiente mais urbano, não havia muita diferença em relação a alguns sentimentos. Acho que essa condição humana comum entre todas nós é que me pegou”, observa Charnizon.

Ao adentrar na rotina de Ávila e de sua mãe que viria a falecer em 2013, a fotógrafa percebeu algumas correspondências entre a atmosfera de solidão constante naquela casa com a experiência de vida de suas habitantes. “Eu percebi que a penumbra que encontrei no primeiro dia que entrei ali precisava ser mantida nas imagens que produziria. A luz interna deveria ser mais fechada porque aquelas mulheres viviam assim mesmo, meio distantes dos outros e mais sozinhas. Mesmo recebendo outras pessoas, que são constantes, como alguns amigos e sobrinhos, a condição delas era mais solitária”, diz a artista.

Foi a partir daí que Charnizon notou ser interessante trabalhar também com o elemento das frestas, recorrente nesse ensaio. Para a fotógrafa, essas surgem também como metáfora de como Ávila e sua mãe se relacionavam com o mundo. “Eu comecei a pensar que elas travavam um contato com o ambiente externo por meio de frestas. É a janela ou a porta que sempre ficam meio abertas e assim elas também percebem o que se passa lá fora”, reflete.

Outro traço evidente é a presença de transposições nas imagens. Para a autora, elas sugerem camadas de memória e foram produzidas por meio de projeções realizadas por ela dentro da casa de Ávila e Luisa.

“Isso começou quando resolvi fazer uma surpresa. Ávila sempre me perguntava quando ela iria aparecer na televisão. Eu explicava que não era esse o objetivo. Eu já tinha levado para ela algumas fotos emolduradas, quando então, resolvi também projetar outras fotografias. O resultado foi muito interessante porque eu mostrei para ela o que já havíamos registrado em outro momento, como o cachorro ou uma flor, que elas me pediam”, diz Charnizon, que sublinha o efeito desse gesto. “Isso dava uma sensação de outra temporalidade que se materializava no presente. Como os cliques eram feitos durante diferentes visitas, surgiam as memórias desses encontros”, completa.

Programe-se

O livro “Memorabilia da Casa do Azevedo”, de Márcia Charnizon, será lançado hoje para convidados no Memorial Minas Gerais Vale (praça da Liberdade). Já no dia 29, às 11h, haverá outro evento de lançamento no Café com Letras (rua Antônio de Albuquerque 781, Savassi), aberto ao público. Entrada gratuita.

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