Olhe, observe compartilhe, reflita e coma

Obras apresentam significados diferentes a partir de premissa em comum: os excessos do mundo atual

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Processo. Cartazes com frases de Douglas Coupland também fazem parte da mostra
© Joana França
Processo. Cartazes com frases de Douglas Coupland também fazem parte da mostra

Em um texto publicado no jornal “A Folha de S. Paulo” em 2007, o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar afirmava que “foi o ready-made que ditou o rumo predominante na arte internacional das cinco últimas décadas”, mesmo desgostando desse tipo de arte. Essa influência é vista até nos dias de hoje e alicerça a mostra “Ciclo”, aberta para visitação a partir de hoje, no Centro Cultural Banco do Brasil.

Lá, estão reunidas obras de artistas de vários lugares do mundo, como Bangladesh, Canadá e China, que se apropriam de objetos triviais e os transformam em instalações artísticas. “Não teria sentido fazer uma mostra brasileira ou de um região específica, pois a questão do excesso que guia a mostra é um fenômeno mundial”, diz Marcello Dantas, curador da mostra.

Uma das obras é assinada por Daniel Senise, único brasileiro selecionado. Ele acumulou mais de 30 mil catálogos, flyers e peças impressas de exposições de sua autoria para montar tijolos. “Escolhi Daniel pelo aspecto transformador de sua obra. Ele pega o seu próprio mundo, ou o excesso dele, e transforma em arte”, explica Dante.

Outro artista que utiliza de suportes impressos é o escritor e artista plástico canadense Douglas Coupland, responsável pela disseminação do termo “geração Y”. A obra dele é composta de cartazes coloridos, afixados lado a lado e com frases de efeito. “Num primeiro momento, a obra dele parece um passarinho fora do ninho, mas não é. Na verdade, eu acho a obra mais contemporânea de todos os artistas, pois apresenta um processo de inserção social que faz com que a obra não termine ali. As pessoas refletem e compartilham os cartazes nas redes sociais. O território dessa obra é o Facebook e o Instagram”, comenta o curador.

Chama atenção também a escultura de Petah Coyne. Em um processo de descontração, ela transformou o trailer de viagens, que simboliza viagens em famílias nos Estados Unidos, em um emaranhado de fios.

Intervenções. Duas intervenções fazem parte da mostra e chamam atenção pela originalidade. A primeira delas é o soltura das fitas de VHS suspensas da obra de Lorenzo Durantini. Elas ficam desenrolando durante 30 minutos e, segundo Dantas, representam o ato de apagar a memória daquilo que serviu para acumular lembranças.

A intervenção mais aguardada, no entanto, envolve comida, e muita. Em sua nova obra por terras brasileiras, o chinês Song Dong constrói uma maquete feita de biscoitos e balas inspirada na arquitetura da cidade em que a exposição passa. Ao todo, são gastos ao menos uma tonelada de biscoitos. “Em São Paulo ele fez o Masp, o Copam e o estádio do Pacaembu. O que ele vai fazer aqui ainda eu não sei”, afirma.

O que se sabe é que a surpresa será devorada por visitantes no dia 29 de novembro, às 10h. Todos estão convidados, apesar do público-alvo ser crianças. “Não há nada mais forte na questão do excesso do que comida. Vivemos em um mundo entre o subnutrido e o obeso, em que tudo é produzido em largas quantidades e ao mesmo tempo, milhares de pessoas passam fome. Até nossos encontros sociais estão envoltos pela comida. Se acabam os horários das refeições, parece que não há mais horário para encontros”, analisa.

Agenda

O quê. Exposição “Ciclo”

Quando. A partir de hoje até 19 de janeiro

Onde. Centro Cultural Banco do Brasil (praça da Liberdade, 450, Funcionários)

Quanto. Entrada franca

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