A casa caiu: o petrolão vai estraçalhar o sistema político

iG Minas Gerais |

DUKE
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Até os contínuos da Esplanada dos Ministérios sabiam que o mundo político é financiado, por dentro e por fora, por esquemas que envolvem obras públicas. E que, por imposição do corporativismo, os políticos terminariam protegendo uns aos outros e levando a investigação em banho-maria. Num debate no “Globo News Painel”, logo após as eleições de 2014, disse que “o petrolão iria estraçalhar o sistema político nacional”. É o que está acontecendo. Acharam que era exagero. Talvez já não achem mais. A dinâmica das investigações não está sendo dada pelas CPIs no Congresso. Elas simplesmente funcionam a reboque dos acontecimentos, cujo epicentro são as decisões do juiz Sergio Moro. As novas prisões de envolvidos, na última sexta-feira, empurram o escândalo para um patamar ainda mais tenso e perigoso. Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Refino e Abastecimento, já era um problemão. O ex-diretor de Serviços Renato Duque, também preso, é um problemão muito maior. Até mesmo pelo fato de que seu gerente, Pedro Barusco, já está colaborando com a Justiça e admitiu ter recebido mais de US$ 100 milhões. Vai devolver tudo. E isso era dinheiro de gerente! Imaginem o dinheiro do diretor! Para onde vamos com tudo o que está acontecendo? O financiamento de partidos e políticos por meio de esquemas de obras públicas, por exemplo, não sobreviverá. Nas últimas décadas, a República funcionou à base de intercâmbio de favores entre empresas, políticos e governo. A generosidade era premiada. A roda da fortuna funcionava da seguinte forma: políticos ajudavam o governo a contratar e financiar obras públicas e eram recompensados com isso. Por dentro e por fora. O acesso aos financiamentos públicos era uma loteria para poucos felizardos. Já os cidadãos comuns penam nas mãos dos banqueiros privados. Nos últimos anos, o que era para ser banido num governo dito de esquerda foi intensificado e chegou às raias do inacreditável. O esquema que está sendo desvendado envolve bilhões de reais e, pelo menos, 70 políticos que serão processados no Supremo Tribunal Federal (STF). Até agora, ninguém pode afirmar se o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff estão envolvidos no esquema. Tampouco não se pode garantir que não serão atingidos pelas investigações. As repercussões dos atos de corrupção tornaram-se internacionais e podem afetar as empresas que operam no exterior. A Petrobras já está sendo investigada. Seus diretores e conselheiros terão de responder sobre o episódio. As relações entre o mundo privado e o mundo político, setores antes privilegiados, serão profundamente atingidas. O modelo que funciona desde o regime militar e atravessou várias administrações está ferido de morte. Em especial, pela impossibilidade de o governo e os beneficiários dos esquemas se protegerem mutuamente. Se escapar da tormenta do petrolão, Dilma Rousseff terá a suprema responsabilidade de, juntamente com os chefes dos demais Poderes, guiar o país para um novo patamar de relacionamento institucional, em que a reforma política será essencial, assim como a reforma das regras de contratação de serviços públicos e de governança e transparência nas empresas públicas e privadas. Hoje, pouco se sabe, publicamente e com precisão, sobre a identidade dos envolvidos e sobre quem recebe o quê. O certo mesmo é que dificilmente os processos e as investigações serão anulados ou neutralizados no STF, como em outras ocasiões. Nada será como antes.

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