Do ordinário ao museu

“Ciclo” traz obras de 13 artistas mundiais em celebração aos 100 anos de criação do primeiro ready-made de Duchamp

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

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Ao entrar na sala da instalação “Disarm”, tem-se a sensação de ser levado a um front de guerra ou para o meio de um tiroteio – aí depende do conjunto de referências que guia a imaginação do visitante. A obra é assinada pelo mexicano Pedro Reys e é composta de instrumentos musicais, como bateria e tambor, conectadas entre si e a um programa de computador, responsável pela sincronia entre eles. Realça o impacto do projeto o fato de os instrumentos terem sido construídos com 6.700 armas, entre pistolas, revólveres e metralhadoras.

Em outros tempos, conseguir essa quantidade de armas para um artista seria algo impensável. Essa é uma das características que unem a obra de Reys a outras 12 que compõem a exposição “Ciclo”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil a partir de hoje.

“Por meio de uma pesquisa espontânea, fui notando uma série de artistas, de diferentes lugares do mundo, que tem como prerrogativa a utilização de materiais ordinários para fazer coisas novas e originais. Além disso, em comum entre as obras estava o signo excesso. Entendi isso como uma reação deles à aceleração das formas de consumo no mundo atual”, diz o curador da exposição, Marcello Dantas.

Ainda em digressão sobre o assunto, Dantas chegou rapidamente à conclusão de que as instalações de sua pesquisa são um desdobramento da ideia seminal de Marcel Duchamp (1887-1968). Coincidentemente, a ideia da exposição surgia próximo ao ano em que se celebra a efeméride de 100 anos da criação da “Roda de Bicicleta” (1913), primeiro ready-made (termo designado a objetos produzidos em massa e expostos como arte) do artista. “Mesmo o excesso na época dele ainda não sendo uma questão, ele apontou para isso ao pegar um objeto do cotidiano para ser transformado em arte. Dessa forma, ele ‘asfaltou’ o caminho para artistas futuros”, diz.

As obras, em geral, são compostas por diversos materiais que compartilham o fato de ser corriqueiros, tais como câmaras de pneus, palitos de dente, doces, veículos e até mesmo lixo. “Mas em momento nenhum estou pensando em reciclagem (como foco da curadoria), apenas tento mostrar como é possível fazer muito com o que já temos para criar algo novo”, afirma Dantas.

A concepção inédita é fortificada pelo uso de tecnologia digital. “São utilizadas linguagens que envolvem eletrônica, vídeos mapeados e robótica para construção de várias obras”, afirma.

Curadoria. Para a estreia, que aconteceu em São Paulo, Dantas afunilou a lista com nomes de artistas, fruto de mais de dois anos de pesquisa, e escolheu 13 de idades e países distintos. “Trouxe artistas de ponta, já conhecidos no mundo inteiro, como Song Dong, da China, e jovens artistas como a uruguaia Julia Castagno. Foi algo proposital, para mostrar que o tema vem passando pelas gerações”.

O trabalho de selecionar nomes para a exposição, porém, foi apenas o início. Devido a particularidades das obras, cada montagem inclui medidas curatoriais completamente novas para adequá-las ao espaço sem comprometer suas essências.

Na capital paulista, por exemplo, a inédita ao público brasileiro “Terceiro Paraíso”, de Michelangelo Pistoletto, não estava presente por falta de espaço. Aqui, a obra que reúne peças de metal foi colocada no pátio central do CCBB. Quando vista de cima (é possível vê-la por esse ângulo do terceiro andar, onde estão localizadas as salas que comportam o restante da exposição), as peças formam uma versão do símbolo do infinito. Por outro lado, o lustre feito de 25 mil absorventes da portuguesa Joana Vasconcelos ficou de fora da incursão da mostra em Belo Horizonte porque o pé-direito das salas é baixo.

Para Dantas, a arte contemporânea facilita que exposições dialoguem com a arquitetura e permitam (e, por vezes, exigem) que, em cada local, a mostra tome formas diferentes. “Mesmo assim, é preciso respeitar a poética de cada artista. No CCBB de BH, em cada salinha que você entrar será como entrar em um pequeno mundo. É como ‘Alice (no País das Maravilhas)’: você abre uma porta e pula em um universo diferente”, compara.

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