Plantando sementes urbanas

Projeto volta com nova proposta e extensa programação que serve de preparação conceitual para ações futuras

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Espanhóis. Coletivo PKMN desenvolve trabalhos que exploram e reconstroem cidades a partir de memórias locais e culturas contemporâneas
FCS
Espanhóis. Coletivo PKMN desenvolve trabalhos que exploram e reconstroem cidades a partir de memórias locais e culturas contemporâneas

Depois do primeiro Noite Branca em Belo Horizonte, realizado em 2012 com trabalhos de artistas locais, a ideia para uma nova edição do projeto sempre foi trazer nomes de fora para interagir com a cidade. Mas os curadores não queriam que os artistas simplesmente trouxessem uma obra pronta e a desovassem aqui.

“A gente convida e eles vêm com uma leitura própria da cidade. Mas a ideia que os artistas de fora têm de Belo Horizonte são sempre desconstruídas quando chegam aqui”, conta a curadora Francisca Caporali. Para ela, por mais que alguns possam conhecer a capital, as dinâmicas ao trabalhar aqui são diferentes e as expectativas são parte do processo artístico. “Queríamos dar aos convidados a chance de conhecer essa realidade, interagir com profissionais, acadêmicos e alunos daqui, na expectativa de que isso gere trabalhos muito mais autênticos e específicos”, explica.

O resultado é a segunda edição do Noite Branca, que começa hoje no Palácio das Artes com um novo formato. Até o dia 22, vários convidados brasileiros e estrangeiros vão participar de palestras, oficinas e entrevistas que terão como ponto de partida o tema A Natureza da Cidade. O objetivo é promover a interação entre artistas, arquitetos e designers de fora com profissionais de Belo Horizonte, plantando sementes de um novo olhar sobre as múltiplas possibilidades de ação no espaço urbano da capital.

A expectativa é que os resultados desse intercâmbio possam ser percebidos a longo prazo, para além da duração do projeto – inclusive numa possível, mas ainda não confirmada, nova edição do Noite Branca no formato de 2012. “Queríamos que o evento deixasse de ser algo pontual para se tornar um processo bem mais enraizado, de forma a ter um impacto maior na cidade”, argumenta a curadora.

Esse desejo de repensar e resgatar os espaços públicos como lugares de convívio e intervenção artística é um movimento que vem acontecendo há alguns anos em Belo Horizonte e, segundo Caporali, já permeava a curadoria em 2012. O que eles estão tentando agora é trazer pessoas que têm alguma experiência com esse processo em outras cidades. “Isso não é particular de BH. Em cada lugar, existe uma dinâmica com relações políticas e econômicas do contexto, e queremos que esses convidados venham olhar nossa cidade com as referências metodológicas deles”, elabora.

Entre essas experiências, está a do arquiteto e artista visual venezuelano Alejandro Haiek, que abre o Noite Branca com uma entrevista hoje, às 13h30, e uma palestra amanhã, às 20h. “Ele parte de práticas de ocupação de espaços e centros culturais urbanos com o pensamento da arquitetura de reaproveitamento e arquitetura de guerrilha”, descreve Caporali.

Além dele, o projeto traz ainda dois membros do coletivo espanhol PKMN Arquitectura, os argentinos do Iconoclasistas e os montrealeses do Daily Tout Les Jours. “Eles têm grandes ações em que as pessoas interagem com a cidade brincando, como uma gangorra que, quando uma pessoa balança, interage com a outra por meio de uma melodia, ou um karaokê gigante para 70 pessoas cantarem juntas”, comenta a curadora sobre os últimos.

O projeto, porém, não vai ignorar as iniciativas locais, com a arquiteta e artista visual mineira Louise Ganz dando uma palestra na sexta, às 20h. “Não queremos sobrepor ao que está sendo falado. Pelo contrário, a ideia é criar uma conexão interdisciplinar com os pensadores da cidade”, defende a curadora.

Para Caporali, é essa transdisciplinaridade – com professores interagindo com artistas, alunos e técnicos – que vai assegurar a permanência da iniciativa. “As ações não dependem dos coletivos estarem aqui para acontecerem e serem replicadas, trabalhando de uma maneira muito horizontal e pouco autoral”, define. E quem acha que esse é um papo só para arquitetos, artistas e designers pode se surpreender. “Tivemos inscrições de gente do meio ambiente, saúde, pessoas que se interessam em pensar a natureza da cidade, afinal todos fazemos uso dela”, reflete a curadora.

Programe-se

Quando. De hoje a 22/11

Onde. As entrevistas e palestras serão no teatro João Ceschiatti do Palácio das Artes, com transmissão ao vivo na sala Juvenal Dias – avenida Afonso Pena, 1.537, centro

As oficinas se encontram com inscrições encerradas

Programação completa. noitebrancabh.com.br

Quanto. Entrada gratuita

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