A guerra das estrelas

iG Minas Gerais |

souzza rodrigo
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Tenho visto muitos filmes de ação. Vou ao cinema com meu filho e já sou um entendido nas missões impossíveis, nas porradas, nas cidades destruídas. Quando estou dentro do cinema, tudo me parece perfeito, como se eu estivesse dentro de uma máquina de sensações programadas. Mergulho em suspense, em medo, em vinganças sem fim, tudo narrado como uma ventania, como uma tempestade de planos curtos, tudo tocado por orquestras sinfônicas plagiando Beethoven ou Ravel para cenas românticas, Stravinsky para violências e guerras. Não há um só minuto sem música, tudo feito para não desgrudarmos os olhos da tela. A eficiência técnica me faz percorrer milhares de anos-luz de emoções e aventuras aterrorizantes, que nos exaurem como se fôssemos personagens, que nos fazem em pedaços espalhados pela sala, junto com os copos de Coca-Cola e sacos de pipocas. Somos pipocas nesses filmes. Esses filmes são de uma eficácia assustadora, como seus heróis. Os efeitos especiais são mais importantes que os conflitos psicológicos. Não importa o enredo; só o gozo da cena. É uma nova dramaturgia de Hollywood: a estética do vídeogame, em que a personagem principal não é mais o “outro”, mas nós mesmos, com o joystick na mão e nenhuma ideia na cabeça. No entanto, quando saio do cinema, caio num grande vazio, em ruas barulhentas, feias, onde tudo parece irreal. Lembrei-me que tinha visto “Thor”, um filme da Marvel que me encantou. Aquilo ia além do mero entretenimento. Era uma parábola mágica, com efeitos poéticos atingindo metáforas visuais lindíssimas como as ilhas flutuantes de Avatar. E aí, uma ideia me tomou: será que, em vez de fuga alienante, a irrealidade desses filmes nos mostra a irrealidade da vida real? Esse pleonasmo me pareceu útil. Afinal, o que é vida real? É a soma dos acontecimentos atuais para os quais ainda temos uma esperança de conserto? Uma esperança de harmonia futura? Mas nas artes atuais há raros vestígios de esperança. Vivemos diante de um futuro que não chega e de um presente que nos foge sem parar. Isso nos faz saudosos o presente como se ele fosse um passado. Mas agora pode estar surgindo um barroco digital, eletrônico, que não almeja verdade alguma; apenas o gozo do presente. Aí, o presente assumido do entretenimento (para dar grana) pode virar arte – obras-primas, por acaso, como “Cantando na Chuva” ou, mais recentemente, “Blade Runner”. Outro dia, vi que Camille Paglia, a corajosa criadora de incertezas, declarou que uma obra-prima da arte atual foi “Guerra nas Estrelas” – de George Lucas. Ela tem razão. Em que filme dos últimos anos, vemos alguma coisa tão brilhante poeticamente como um “Shakespeare” sideral – a historia de uma luta épica e edípica entre Luke e Darth Vader flutuando no universo infinito? Filmes de ação, “blockbusters” estão virando (até sem saberem) verdadeiras “Odisséias” tecnológicas, homéricos efeitos especiais, muito mais interessantes que melancólicos capítulos do “mal do mundo”. A destruição que vemos na vida, a sordidez mercantil, a estupidez no poder, o fanatismo do terror, em suma, toda a tempestade de bosta que nos ronda está muito além de qualquer crítica. O mal é tão profundo que denunciá-lo ficou inútil. Só nos resta o cinismo e a convivência conformada com o nada. Camille acusa os próprios artistas que só falam para um grupelho de entendidos, sem contato com o grande público que desprezam. Camille pergunta: “Por que desprezar o grande público? Quando Marcel Duchamp desenhou um bigode num cartão-postal da Mona Lisa (em 1919), ele estava tentando destruir essa idolatria fetichista da “obra-prima”. Os artistas pop seguiram o mesmo caminho do dadaísmo de Duchamp. (...) Há um vácuo no mundo da arte. Os artistas estão fracassando na tarefa de deixar expressões significativas na vida contemporânea. O cinema de autor ficou mirrado diante de tanta homérica violência. Estranhamente, os blockbusters estão deixando marcas mais profundas que a arte em nosso imaginário. Ao contrário das obras que vendiam um “futuro”, um paraíso soviético ou um Reich de Mil Anos, os EUA vendem o “presente”, um enorme presente prático. E nada é parte de um complô para nos lavar o cérebro, nada disso. Não há Comitê Central nem CIA, por trás. O verdadeiro cinema político é o filme norte-americano. A verdade é que passamos da ilusão para o desencanto. Vargas Llosa escreveu no “El País”, num ensaio chamado “A civilização do Espetáculo”. Leiam: “Agora, no lugar de ‘futuro’, temos um presente incessante, sem ponto de chegada. Pela influência insopitável do avanço tecnológico da informação, foram se afastando do grande público as criações artísticas e literárias, as ideias filosóficas, os valores. Em suma, sumiu toda aquela dimensão espiritual chamada de cultura que, ainda que confinada nas elites, transbordava sobre o conjunto da sociedade e nela influía, dando um sentido à vida e uma razão de ser para a existência”. Eu concordava com ele, saudoso de feridas...mas agora não concordo mais. Vargas Llosa estava com saudades de si mesmo. Saudade dos bons tempos dos “maîtres à penser”, saudade dos autores como profetas, proferindo sentenças. As obras de arte hoje são côncavas, viradas para dentro, sem “finalidade”. Uma nova era de criações está se tecendo. E ela não vai alcançar “sentido” algum em algum “ponto final.” Ela é móvel, um trem sem rumo. O trem não para nunca. Não sabemos o que é nem o que será. Pois nada mais será... Não adianta criticar essa nova coisa com as antigas serventias da arte na cultura. Uma espantosa nova linguagem cresce como um “transformer” nas telas do mundo. A nova arte (como chamá-la?) pode estar surgindo justamente desse vazio de conteúdo. Esse vazio nos toma, nós somos parte desse vazio. Não o contemplamos mais; ele nos envolve, estamos dentro, não o vemos mais de fora. A nova “arte” não leva a nada. Leva a nós mesmos.

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