Quando o dinheiro “fala alto”

Na função de caixa de uma boca de fumo, mulher revela como concilia essa vida com a maternidade

iG Minas Gerais | Flaviane Paixão |

Maioria das mulheres presas no país tem relação com o tráfico
ALEX DE JESUS/O TEMPO
Maioria das mulheres presas no país tem relação com o tráfico

Regina* nem completou 30 anos, mas já tem autonomia para comprar tudo o que lhe interessa sem sequer fazer uma prestação. E é assim, pagando à vista, que garante conforto para os três filhos pequenos e uma casa “arrumadinha”, como ela mesma define, com artigos de decoração em sintonia e eletrodomésticos modernos. O imóvel, de três andares, não é muito extenso, mas tem cobertura com churrasqueira e vista panorâmica da capital. Mas esse padrão não é sinônimo de uma vida tranquila. Pelo contrário. Regina assumiu a função de caixa da boca de fumo do marido em um dos maiores aglomerados de Belo Horizonte. Mesmo preso, ele está “na atividade”, acompanhando o que seu braço-direito faz do negócio, enquanto Regina recebe o lucro após a venda de cocaína, droga com a qual trabalham. “Dia a dia você tem carne, fruta, tem as coisas, mas não tem sossego, você não dorme direito, com medo de a polícia bater em sua porta. Tenho medo de a família toda cair em cana e meus filhos ir (sic) para o conselho tutelar”, afirma Regina, que recebeu a reportagem em sua casa. O marido de Regina está preso na região metropolitana por tráfico e outros crimes. Ele entrou nesse mundo ainda rapaz, com 14 anos, diz Regina, e nunca se envolveu em um confronto para assegurar seu espaço. A detenção ocorreu em flagrante e ele aguarda o julgamento. Até por reconhecer que sua associação à venda de entorpecente é crime, Regina pede para que alguns detalhes da sua vida em família sejam preservados, mas ela acredita que esse é o caminho “quase natural” de mulheres de donos de boca. “Sou a única que está aqui fora, que convive com ele e que tinha que pegar as coisas dele. Vou deixar o dinheiro na mão dos outros? Mas ele manda eu não me envolver, que é para deixar para lá”, conta. Em uma semana considerada boa, Regina chega a receber R$ 8.000, já descontando o montante que será usado para comprar nova remessa de cocaína e a parte para quem está na chefia da boca. Ela não anota nada, guarda tudo de cabeça para não servir de prova. O acerto também não é feito lá, tudo é combinado fora de seu ambiente. O montante não é depositado, mas ela não revela como circula a quantia. Questionada sobre como sabe o valor a receber, Regina explica que o marido a informa, quando faz as visitas ao presídio, o lucro que ele tem que tirar conforme a compra que ele próprio faz. Ela também informou que o companheiro não usa celular na unidade em que está recolhido. Regina garante não ter contato com a cocaína nem saber a origem dela, pois quem negocia a compra é o marido. Mas ela explica que o “pó” é oferecido em pinos dos tipos pequeno e grande, que custam, em sua região, R$ 20 e R$ 30, respectivamente. A procura é mais intensa a partir das 17h de sexta-feira, mas é um negócio que não para. “É 24 horas chegando gente: de carro, rico e tudo quanto é tipo. São empresários e até policiais corruptos que compram na mão deles”, afirma. *Nome fictício

Desejo de mudança de vida existe para preservar os filhos Regina não gosta de ostentar nem de mostrar para a vizinhança que tem recursos. Não gosta de festas nem de ‘amizades’. Mas uma coisa ela deseja, antes mesmo de o marido sair da cadeia: mudar de vida. “Independente de ele ser condenado ou não, eu vou dar um rumo na minha vida, fazer um curso, e ajudar ele a sair também. Tenho que ajudar, porque não é fácil, não (sic)”. Ela teme que os filhos possam fazer a mesma escolha do pai e, por isso, os priva de visitas constantes ao presídio e não explica muito a situação dele. “Quero que meus filhos estuda, faça faculdade e vá ser alguém na vida, e não caçar a vida de bandidagem porque é cadeia, caixão ou ficar aleijado favela afora (sic)”. A pena para o crime de tráfico de drogas varia de cinco a 15 anos de reclusão.

Das presas, a maioria é por tráfico

A maioria das mulheres presas no país tem relação com o tráfico de drogas. Conforme dados mais recentes do Ministério da Justiça, relativos a junho de 2013, eram 22,66 mil detidas nas unidades brasileiras, sendo 72,7% (16.498) delas por venda de entorpecentes. “São pessoas que tinham uma vida normal, mas por envolvimento do companheiro no tráfico acabam sendo presas. Muitas nem são traficantes, mas guardavam droga para o marido, filho ou irmão”, analisa o presidente da Coordenação Nacional de Acompanhamento do Sistema Prisional, advogado Adilson Rocha.

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