Para confundir, explicar e inverter sua ordem

Ao lado de Criolo, Caetano Veloso e Milton Nascimento, Tom Zé lança disco clássico

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Conceito. Nas fotos para o disco, que tem arte de Mallu Magalhães, Tom Zé aparece bem irreverente
André Conti
Conceito. Nas fotos para o disco, que tem arte de Mallu Magalhães, Tom Zé aparece bem irreverente

Não é de hoje que Tom Zé vive advertindo por aí: “a canção bonita acabou de morrer”. Você pode achar que a máxima praticada em todos os seus discos desde 1976 – desconstruir aquela música perfeita, que agrada aos ouvidos e só conforta, ao invés de incomodar – caiu por terra agora. Espere um instante, então, e dê play em “Vira Lata na Via Láctea” (Independente), preparando-se para ouvir a filosofia de ordem de Tom Zé ser invertida por ele mesmo para constatar e avisar uma realidade mais do que certeira: “A humanidade é infeliz por ter feito do trabalho um sacrifício e do amor um pecado”.

O fato é que o novo disco de Tom Zé não explora com virtude a esquisitice aleatória de barulhos de latas, enceradeiras, bicicletas e afins – como ele sempre fez –, confundindo a cabeça do ouvinte para explicar, explicando para confundir, let it be. É que, nesse disco, a confusão acontece de forma inversa porque Tom Zé tem belos arranjos a seu favor para compor um disco excessivamente melódico, contraposto por algumas das letras mais rasgadas, fortes e emblemáticas desde o aclamado “Com Defeito de Fabricação” (1998), que deu definitiva visibilidade para o compositor baiano. Em todo o álbum, a humanidade é questionada com palavras cuidadosamente encaixadas entre a agressividade e a sutileza, ora vomitadas, ora acalentadas, mas sempre em cima de belas melodias e arranjos meticulosos de Marcus Preto, que assina a direção artística. Logo de cara, Tom Zé apresenta uma “Geração Y” em ritmo de samba cadenciado e pede nas primeiras frases um daqueles absurdos bem Tom Zé: “ai, ai, meu bem, tire a calcinha”, antes de entoar o refrão de súplica irônica pelo ser humano: “daqui a alguns anos / vamos ter que governar”. Outro samba, desta vez com a participação do rapper Criolo, soa um pouco radiofônico, mas não tocaria em nenhuma estação FM do país pelo refrão que julga publicações jornalísticas do país: “veja, isto é pouca lenha no grande bate-boca / e ainda escrevo uma carta capital / para os caros amigos desta banca de jornal”. Mais uma pedrada melódica, “Pour Elis” carrega um dedilhado de violão suave e solos de guitarra distorcidos por Kiko Dinucci para homenagear Elis Regina. O detalhe é que os versos são entoados por Milton Nascimento – que “parece chegar perto da voz de Deus”, como Tom Zé definiu sua interpretação e como a própria Pimentinha atestou ao ouvir o mineiro cantar. Da criação musical mais envolvente do álbum, “Salve a Humanidade” tem um arranjo criativo e dançante da Trupe Chá de Boldo para deixar um recado mais do que claro: “o que salva a humanidade / é que não há quem cure a curiosidade / a curiosidade inventou a humanidade / o buraco da fechadura”. Ao acabar de ouvir “Vira Lata na Via Láctea”, o estado de choque é substituído gradualmente por uma sensação de que, sim, ele conseguiu de novo. Entre os melhores discos do ano, Tom Zé continua provando aquela sua certeza de que a linha entre uma enceradeira e um piano é muito tênue, assim como a linha entre a beleza e o incômodo também pode ser.

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