Sem filtro e além das galerias

1º Festival “Erro 99” terá cinco dias de programação para democratizar a fotografia autoral nas ruas e espaços públicos

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Salto. Gustavo Campos, Daniel Iglesias e Bruno Figueiredo, três integrantes do coletivo Errro 99, que conta ainda com Matheus Rocha
MARIELA GUIMARAES / O TEMPO
Salto. Gustavo Campos, Daniel Iglesias e Bruno Figueiredo, três integrantes do coletivo Errro 99, que conta ainda com Matheus Rocha

Eles queimaram belas fotos em praça pública sem dó ou qualquer apego à arte, conseguiram vender um mero 3x4 por nada menos que R$ 120 em um leilão feito no meio rua e chamaram a atenção de muita gente ao fazer do erro – ou da maluquice muitas vezes encarada como erro – uma nova possibilidade. Depois de acumular bagagem e reconhecimento em ações isoladas por encontros de fotografia, o coletivo Erro 99 se prepara para o seu primeiro festival autoral. A partir desta quarta-feira, dia 19, até 22 de novembro, o quarteto de fotógrafos formado pelos mineiros Daniel Iglesias, Bruno Figueiredo, Matheus Rocha e Gustavo Campos vai colorir as ruas e espaços culturais de Belo Horizonte com uma série de palestras, oficinas, intervenções pela cidade e workshops com convidados como João Wainer, da TV Folha, e Raquel Brust, do Projeto Giganto. Tudo para debater e construir a fotografia como um processo democrático, não restrito apenas a exposições em galerias fechadas.  

Há cerca de um ano, o Erro 99 nasceu literalmente de um erro geral que atingia as câmeras fotográficas da marca Cannon – usadas pelos amigos do coletivo, na época. A “pane geral” da máquina – inexplicável até para a própria fabricante – despertou interesse do grupo, que começou a disseminar ideias de improviso e fotografia essencialmente de rua por festivais como Paraty em Foco, Fotógrafos em Ouro Preto e, recentemente, na Virada Cultural de Belo Horizonte e no Festival de Inverno da UFMG.

“A gente percebeu que tinha que lidar com improviso, o acaso e os perrengues para fotografar: e isso fazia da fotografia algo mais instigante, abrindo possibilidades. Vimos que em Paraty uma galera conhecia a gente ano passado – mesmo eu, por exemplo, sendo fotógrafo e nunca tendo exposto numa galeria. Aí veio a ideia de um festival na rua, mais democrático e com uma visibilidade maior”, diz Daniel Iglesias.

Em sua primeira experiência como festival, o Erro 99 vai ter como carro-chefe três das principais ações praticadas neste um ano de vida. O “Show de Likes”, evento onde o público vota nos melhores ensaios fotográficos levantando plaquinhas de “curtir”, terá 16 exposições de fotógrafos projetadas num telão – sendo até 12 imagens para cada ensaio selecionado. A novidade para o festival é que, desta vez, haverá uma curadoria dos fotógrafos Pedro David e Francilins para orientar os fotógrafos que serão julgados pelo público.

Na outra linha de frente, o “Queimão Fotográfico” pretende incendiar fotos que não receberem um lance mínimo de R$ 5, em um leilão realizado em praça pública. Em outras edições beneficentes, a atividade chegou a arrecadar R$ 4 mil para o Espaço Comum Luiz Estrela, R$ 1.800 para o movimento “Resiste Isidoro” e outros R$ 600 para o Duelo de MCs Nacional.

Além disso, o festival ainda faz acontecer a segunda edição da “Assembleia Popular de Pixels”. Inspirada nos movimentos de debate que fervilharam na cidade nos últimos dois anos, o festival vai promover um encontro aberto com pautas definidas na hora pelos fotógrafos. “São eventos democráticos que incentivam fotógrafos a fazer ensaios, pensar a fotografia ao serem julgados pelo público e também valorizar fotos em um leilão acessível. A ideia toda do festival é essa: abrir espaço para que o projeto seja construído de maneira colaborativa, e não só pelo Erro 99 como um coletivo isolado”, avalia Bruno Figueiredo.

Dilemas. O Erro 99 teve a maior parte da verba viabilizada por crowdfunding, através da plataforma virtual de financiamento coletivo Variável 5. O grupo conseguiu arrecadar R$ 19,145 mil até o fechamento desta edição, superando a meta de R$ 17 mil pretendidas inicialmente. Além disso, o festival também tem apoio de R$ 10 mil do Fundo Municipal de Cultura. Mesmo com o dinheiro em mãos para bancar as atividades, os locais do evento ainda podem sofrer alteração. Previsto para acontecer embaixo do emblemático viaduto Santa Tereza, os organizadores tiveram o pedido negado pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), devido às obras de revitalização no local, que só devem ser concluídas no primeiro semestre de 2015 – segundo nova previsão do poder executivo.

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