Lisonjeador de palavras

iG Minas Gerais |

Hélvio
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“Tenho gosto de lisonjear as palavras ao modo que o Padre Vieira lisonjeava. Seria uma técnica literária do Vieira? É visto que as palavras lisonjeadas se enverdeciam para ele. Eu uso essa técnica. Eu lisonjeio as palavras. E elas até me inventam. E elas se mostram faceiras para mim. Na faceirice as palavras me oferecem todos os seus lados. Então a gente sai a vadiar com elas por todos os cantos do idioma. Ficamos a brincar brincadeiras e brincadeiras”. Eu queria reproduzir só uns dois ou três versos de Manoel de Barros, mas retornei a esse texto, “Jubilação”, do livro “Memórias Inventadas – A Terceira Infância”. E não há como parar para respirar diante dessa prosa poética inebriante. Exemplo-mor do que esse artesão das letras deixou pra gente. Muito vem se falando e escrito de Manoel de Barros nesses últimos dias, desde que ele partiu desta vida terrena quinta-feira última. Especialistas buscam a melhor definição para o indefinível. Mas eu me permito também esta modesta homenagem. E é bom mesmo que se fala e que se escreva sobre Manoel de Barros. Porque a verdade é que, embora ele seja reconhecido como um de nossos maiores poetas, a reclusão voluntária do autor em sua fazenda no Mato Grosso teve um efeito de não difusão da sua obra na dimensão que ela merece, principalmente entre gerações mais recentes. Para mim, ler os escritos de Manoel de Barros foi uma grande descoberta e um imenso aprendizado. Nessa fonte conheci o perfeito convívio entre o simples, quase primitivo, e o sofisticado. Ele escreveu que o filósofo Sócrates, “estudava nos livros demais. Porém, aprendia melhor no ver, no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar”. Eu já admirava muito o poeta quando tive o privilégio de encontrá-lo pessoalmente, ao fazer a cobertura jornalística da entrega de uma das edições do prêmio literário Portugal-Telecom, em São Paulo, em 2005. Houve um coquetel para os presentes, o que permitiu alguns bons minutos em que ele, solícito e simpático, conversou comigo e mais alguns colegas jornalistas. Guardei a cortesia e aquele sorriso matuto. Anos antes disso, em 1998, ele recebeu em sua fazenda no Mato Grosso, uma equipe deste jornal O TEMPO, o amigo jornalista Regis Gonçalves e a fotógrafa Vera Gonçalves. Regis, também poeta, nos brindou com uma grande e inspirada reportagem (como fazia sempre) que guardo em meus arquivos. Manoel de Barros, enfim, como ele próprio se autodefiniu, botou “um pouco de inocência na erudição”. E é melhor aproveitar o que resta neste espaço, com um pouco mais dos textos dele: “Fomos formados no mato – as palavras e eu. O que de terra a palavra se acrescentasse, a gente se acrescentava de terra. O que de água a gente se encharcasse, a palavra se encharcava de água. Porque nós íamos crescendo de em par. Se a gente recebesse oralidades de pássaros, as palavras receberiam oralidades de pássaros. Conforme a gente recebesse formatos da natureza, as palavras incorporavam as formas da natureza”.

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