Desvendando a eleição (3a parte)

iG Minas Gerais |

Aviso que não haverá uma quarta parte. Já me arrisquei muito. Disse o Mestre que “A verdade vos libertará”, o teósofo se dirige segundo “A verdade é a única religião”. Entretanto, no ambiente político, a verdade incomoda, a dissimulação é considerada uma arte e ensinada por Maquiavel, que se orientou pelo sucesso de 13 Césares e como mantiveram o poder, num mundo sem religião cristã. A reação aos dois primeiros artigos desta série me surpreenderam. Recebi vários “pedidos de confidencialidade”. Obviamente só em relação ao informante, não à ardente contrariedade, que ainda não se aquietou. Quem ganhou vive num éden. Mas para quem perdeu o momento é de amargura. Alguns, depois de 12 anos atrelados a um projeto, estão sem emprego e sem rumo. Aplicando-se os descontos da “confidencialidade”, a vitória de Dilma em Minas caiu como inesperada no contorno e no meio do poder tucano; imaginava-se que Aécio fosse imbatível, especialmente em Minas. Acreditava-se numa espécie de Aquiles nascido de Vênus e deixado invencível pelos deuses, menos no calcanhar, que Páris descobriu e acertou. Disputava em casa, como o Brasil no Mineirão enfrentou a Alemanha. Contava com um histórico de triunfos e uma aprovação em 2010 de 92% dos mineiros. Largou, nas primeiras sondagens eleitorais deste ano, com vantagem abissal sobre Dilma. As apostas, na praça Sete, se davam sobre os “milhões de votos de diferença” a favor de Aécio, projetando-se entre 20 e 25 pontos de frente. O quadro mostrado pelas pesquisas induzia a crer que qualquer ungido por Aécio, assim como foi Anastasia, seria também levado a governar Minas por mais quatro anos. A quem ousasse recomendar cuidados, em abril deste ano, em clima de “já ganhou”, era dado um chega pra lá. Minas nunca faltaria ao apelo de Aécio! Minas é tucana! O dogma estava posto em Minas, assim como o concílio realizado no Vaticano atribuiu a infalibilidade ao papa em 18 de julho de 1870, papado de Pio IX. O concílio tucano de Belo Horizonte em 2014 prognosticou entre 2 milhões e 4 milhões de votos de frente, e 1,5 milhão para Pimenta da Veiga, já no primeiro tempo. Deduzia-se que, se Minas dava 4 milhões de frente, o candidato tucano tinha potencial para chegar à Presidência. A questão estava no fato de que o Brasil apenas em parte conhecia Aécio, cerca de 40%; quando a popularidade chegasse a índices mais elevados, seria uma festa. Dilma ainda tinha despencado para 30% de aprovação no Brasil afundada pelos protestos de 2013. Sonhava-se em excesso. A ilusão durou até julho, mas os sinais de queda moderada em Minas, de 2 pontos a cada mês, em junho e julho, detectados pelo DataTempo, não assustaram ninguém, foi a queda do avião de Eduardo Campos que mostrou que os cupins tinham roído a casa dos tucanos. O êxodo de Aécio para Marina e o deslocamento para Dilma não se deram pela falta de Eduardo Campos, mas por razões reais, ou mais precisamente por erros em Minas. O resultado do segundo turno deu vitória a Dilma com 4,8 pontos e apenas 0,77 ponto de desvio do resultado nacional. Foram exatos 548.697 votos. Um número que pode desafiar cabalistas e numerólogos, nele estão todos os números de 4 até 9. Seu somatório, que resulta em 39, ou 3 vezes o 13, número do PT. Ainda deu 13 para o deputado estadual mais votado, deu 13 para o deputado federal mais votado, deu 13 para governador e deu 13 para presidente. Pode-se ver que 1 + 3 = 4, igual aos cargos em que o 13 se sobressaiu. O 45 ganhou onde o 13 não competiu para senador, e Josué Alencar disputava com o 15 à frente do PMDB. Se o Código da Vinci inicia com a famosa sequência de Fibonacci, o Código do PT de Minas se finaliza numa sequência intrigante de erros tucanos que evaporou os 4 milhões de votos entre abril e julho de 2014. Com a garantia de excluir os nomes dos derrotados, ouvi “faltaram zelo e competência” para defender a vantagem oceânica inicial de Aécio. “Sem foco e atirando no escuro”, inclusive nas retaguardas da campanha. Um caos logístico, organizativo e “pitacos de educação”. O clima de já ganhou, “sempre ganhamos”, e a crença de que Pimenta subiria automaticamente, por decreto papal, imobilizou e confundiu a tropa. “Aécio lutava pelo voto como leão”. Enquanto as confusões ocorriam no ninho, em Minas o PT plantava que “com o gasto da Cidade Administrativa daria para construir hospitais, escolas, pontes” e tudo que ainda se reclamava nos grotões que dentro do monumento não encontravam atendimento a suas demandas. A falta de água, segundo o PT, era atribuída aos “obstáculos interpostos no Senado por Aécio na construção de barragens”. Tarifas elétricas em Minas recaíam nele, as alíquotas do ICMS também, os custos do álcool, dos remédios se repetiam como mantras que se firmaram nas regiões mais periféricas. Nessa campanha o PSDB não respondeu, tudo correu solto, ou vagamente respondido. Pimenta parecia aguardar o milagre prometido que não aconteceu. Pimentel entrou de azul e perfilado como um bom aecista, Pimenta de amarelo e de vermelho como um socialista. O Aeciel confundia. A campanha tucana, pífia como nunca. Os candidatos, deputados em busca da reeleição, do alto dos R$ 10 milhões de emendas orçamentárias da União, levavam o governo federal à presença dos eleitores em suas bases. As campanhas se arrastavam sem barulho, mas corroíam o PSDB. A vantagem inicial autorizou um excesso de confiança. “Interna corporis” ao PSDB, segundo a “confidencialidade que garanti”, se transformou em quartel de encastelados que defendiam os louros da vitória decretada pela pesquisas que apareciam favoráveis. Vários prefeitos da Zona da Mata, pressionados por disputas fratricidas entre candidatos a deputados do PSDB, deixaram de lado os candidatos majoritários do partido. Os conflitos na Zona da Mata acabaram por entregar ao PT uma vitória que nunca tivera ali, fazendo da região uma repetição do Norte de Minas e Jequitinhonha. Um prefeito bem tucano encaminhou um comentário “esqueceram-se de informar que Aécio era candidato”, e a forte influência carioca consagrou a vitória de Dilma. O mantra de “3 milhões de votos de frente” levou os coordenadores a fechar o comitê, para não dividir os louros da vitória com outros. Questões alheias ao interesse imediato entraram no comitê sacudido por planos sucessórios de Marcio Lacerda. Numa luta sem gritos, as cascas de bananas eram trocadas entre grupos que, sem a presença de Aécio, levantaram a crista como galos. Até as vantagens que o governo poderia oferecer não encontraram atenção no comitê. E o governador Pinto Coelho foi distanciado da campanha, dispensado de presença apesar de ser uma figura respeitada e de prestígio. Pimentel entrou de azul, sóbrio como sempre foram os tucanos, marcando inicialmente uma disposição para uma campanha Aeciel. O publicitário Cacá Moreno recebeu ordem de reproduzir para Pimenta a campanha de Marcio Lacerda. Obedeceu e virou em agosto o bode expiatório da escolha errada, quando se aperceberam, ou prestaram atenção, que Pimenta da Veiga e Aécio não se atrelavam. A imagem de Aécio sumiu de Minas, no interior a logística tucana não funcionou, o material, se foi distribuído, não foi exposto. Os tucanos atarefados em eleições proporcionais e solteiras distribuindo verbas do governo federal. Tantos equívocos aconteceram sem a presença do dono (Aécio). As maçãs foram apodrecendo no balaio. “Nunca se lembraram de pedir voto para o Aécio”, confidenciou um prefeito que cruzou os braços. Os grotões que foram reserva de votos da antiga Arena na ditadura ficaram em peso com o PT em Minas. Números: a diferença a favor de Dilma no nosso Estado foi de 548.697 votos. A mesma diferença se encontra considerando apenas os 162 municípios, 9,8% do eleitorado (1.087.492 votos válidos no segundo turno). O perfil desses municípios, grotões da antiga Arena, se caracteriza pela média de 6.451 votos cada, a localização no Norte e Zona da Mata. Nesses, 24,7% dos votos premiaram Aécio, e 75,2%, Dilma. Belo Horizonte, sozinha com seus 1.435.784 votos, deu ao Aécio uma vitória de 417.614 votos. Com os pequenos e carentes ganhou. Vasculhando os resultados podemos encontrar infinitas razões de vitória e de derrota, das quais tentei sintetizar aqui as mais relevantes. Teve méritos extraordinários Pimentel. O maior por ter errado menos. Aécio dessa vez não segurou o leme do barco e, quando as tempestades chegaram, perdeu o rumo. Podemos lembrar Júlio César e outros grandes romanos, que, quando saíam para uma expedição de conquista, deixavam em Roma fortes aliados. Nunca levaram consigo mais que o necessário, e o melhor ficava na retaguarda. Quando César se esqueceu, ao voltar, estupefato, caiu sob as lâminas, lamentando: “Até tu, Brutus, filho meu...” César há 21 séculos sofreu as influências de Cleópatra e passou muitas noites na beira do rio Nilo; o filho de criação imaginou em Roma que poderia subir ao status do pai juntando-se com Cassius. Todos depois se deram mal. Essa não pretende ser uma verdade inquestionável, escrevi tentando manter a verdade que me chegou como uma obrigação. Quem quiser continuar na procura de outras razões as encontrará certamente. Resta que a participação na vida política de um grande número de pessoas pode mudar até o destino escrito nas estrelas. Pois, onde o sol acalenta e a escuridão esfria, a sorte precisa de motivos para se manifestar.

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