Uniões também pelo poder

Para pesquisadora, relações entre detentas podem ser atos que visam proteção dentro do sistema

iG Minas Gerais | Luiza Muzzi |

Sobrevivência. Proximidade entre presas pode visar proteção dentro das unidades e não necessariamente revela uma opção apenas sexual
AJL
Sobrevivência. Proximidade entre presas pode visar proteção dentro das unidades e não necessariamente revela uma opção apenas sexual

Para além dos desejos do corpo, muitos dos relacionamentos homossexuais que acontecem dentro das unidades prisionais podem também estar ligados a relações de poder. Em um espaço naturalmente permeado por regras, recompensas e punições – que vão além daquelas inerentes ao sistema, envolvendo também as firmadas entre as próprias presas –, aproximar-se de uma ou outra colega de cela pode fazer toda a diferença no dia a dia de uma detenta.

“Ter certa forma de proteção e andar com um grupo que tem legitimidade maior podem fazer com que alguém opte por ter essa relação, que não é só desejo ou carência”, explica a doutoranda em psicologia social pela Universidade Federal de Minas Gerais, Rafaela Vasconcelos.

Segundo a pesquisadora, o surgimento de novos relacionamentos entre mulheres nos presídios por todo o país não significa que as presas estão se tornando homossexuais. “Ter práticas sexuais e afetivas com pessoas do mesmo sexo não quer dizer uma identidade lésbica. Elas (as presas) podem manter relações em determinado período, mas não necessariamente estão se tornando ou vão se identificar como lésbicas”.

Rafaela ressalta ainda que o abandono de antigos parceiros não pode ser visto como motivação direta dos relacionamentos com colegas. “São coisas que estão relacionadas, mas que não são causa e consequência.”

DESAFIADOR. Além de todas as disputas internas, a mulher presa ainda precisa conviver com um ambiente, que, na visão de especialistas, é bastante precário para suas necessidades. “O sistema penitenciário é feito por homens e para homens”, afirma o assessor jurídico da Pastoral Carcerária Nacional, Paulo Malvezzi. “O número de mulheres presas cresce em ritmo maior do que o de homens presos, mas as políticas prisionais não são feitas para a mulher. E tudo isso torna a vida da presa muito pior”, avalia.

Segundo ele, a ausência de condições específicas para a mulher passa pela estruturação das penitenciárias e pela assistência humanizada. “Falta atendimento ginecológico, e as creches (para bebês), quando existem, são bastante precárias. Também existe dificuldade na compra de materiais de higiene, como absorventes”.

Malvezzi afirma que a pastoral defende uma política de desencarceramento. “Mas enquanto houver pessoas presas, é necessário que a política seja feita respeitando as diferenças e especificidades dos presos”.

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