Pela liberdade individual

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

“Sobre os pedidos por intervenção militar, eu fiquei, acima de tudo, constrangido porque foi uma confissão pública de burrice”
Zeca Ribeiro_
“Sobre os pedidos por intervenção militar, eu fiquei, acima de tudo, constrangido porque foi uma confissão pública de burrice”

Conhecido por sua militância a favor de igualdade de direitos para a população LGBT, para prostitutas e prostitutos e pela descriminalização da maconha, o deputado federal Jean Wyllys conversou com o MAGAZINE sobre o recém-lançado programa que apresenta no Canal Brasil, “Cinema em Outras Cores”, e também sobre acontecimentos políticos recentes.

Como surgiu a oportunidade de apresentar o programa “Cinema em Outras Cores”. Foi um convite?

Foi um convite do Paulo Mendonça (diretor do canal). Na verdade minha história com o Canal Brasil é mais antiga. Entre 2008 e 2009, eu tinha gravado um programa com o Luiz Carlos Lacerda, mas acabou não dando certo, porque tinham vários programas e não conseguimos patrocínio suficiente para completar a grade. Num segundo momento, dirigi o documentário “Três Meninas do Brasil”, que foi exibido pelo canal. Depois que o Cine Mix Brasil saiu da grade, o Carlos me chamou novamente para conceber um novo programa.

No programa, são exibidos curtas. Como foi a escolha dos filmes que são exibidos?

O formato e a programação eu comecei a pensar inspirado em uma visita ao CineclubeLGBT do Rio de Janeiro. Especificamente para a escolha final dos filmes, usei como critérios a qualidade e a capacidade de representar a liberdade individual, abordando temas voltados para o público LGBT, religião e até poliamor. Muitos deles, porém, ficaram de fora por serem curtos demais, ao ponto de não justificarem um programa inteiro, ou longos demais. Também alguns não entraram, pois decidi escolher apenas um filme por diretor.

Para a militância da diversidade cultural e humana, qual a importância da realização de programas televisivos como “Cinema em Outras Cores”?

Primeiramente, serve como fonte de educação informal por contribuir com a construção da visão de mundo de pessoas que não tem acesso a determinados temas em seu dia a dia. Dessa forma, colaboram para que todas elas, estejam onde estiverem, saibam como lidar com pessoas diferentes delas a partir de uma produção audiovisual. É algo que as produções para TV muitas vezes não conseguem expressar, por todas as suas limitações. Do ponto de vista da economia criativa, é uma forma de estimular a produção de curtas-metragens. Em muitos casos, por exemplo, obras desse formato são produzidas e não têm lugar para serem exibidas se não entrarem em festivais de cinema. Mas ainda assim, o público de festivais é restrito. O programa dá espaço para que essas produções sejam exibidas e criem diálogos com outras mídias, estendendo-se para a internet. Assim, estimulamos a produção de curtas com tramas no segmento.

Os programas já foram todos gravados? Como foi a experiência para você?

Já sim, o canal já quer fazer uma segunda temporada devido ao sucesso que o programa está fazendo e é uma experiência muito boa. É importante ressaltar que meu desempenho como parlamentar não é prejudicado pelo programa. Além disso, sou professor e escritor, e minha experiência em TV é voltada para áreas de minha atuação política. Por isso, vejo minha atuação no programa como uma extensão da minha vida política. O entretenimento é um caminho para estimular a atividade política.

Seu trabalho como congressista é baseado na luta em questões polêmicas, como criminalização da homofobia, legalização da maconha e da prostituição. Pessoalmente, o que te motiva a trilhar esse caminho?

O que motiva é minha própria vida. Eu venho do Brasil profundo, do interior da Bahia, criado na periferia, sou mestiço e conheço de perto o que é trabalhar arduamente. Minha vida política está ligada a esse passado, que me deu força para não ser vítima de pessoas intolerantes. Minha vida de jornalista está relacionada aos direitos humanos. Tudo isso tem a ver comigo e acho que, por isso, sempre busquei por uma sociedade democrática em que os seres humanos tenham acesso à igualdade de direitos. O que me motiva nesses tempos também está ancorado em dar visibilidade a populações invisíveis, às mulheres e homens prostitutos, à população LGBT, deficientes visuais, comunidades de surdos. É preciso falar sobre isso, porque muitas pessoas da nossa sociedade são hipócritas e preferem não tocar nessas questões. Mas eu sempre vou falar, e não só como legislador, mas como cidadão também.

Lutar por essas questões incomoda muitas pessoas conservadoras em nossa sociedade. Você sofre ameaças?

Sim, já fui ameaçado por e-mail, telefone e pelas redes sociais em meu mandato. Na internet, veio do (deputado) Jair Bolsonaro (PP-RJ), inclusive tenho um processo contra ele no Conselho de Ética. Ele só não foi julgado pela Justiça comum por seus atos, incluindo quebra de decoro, porque goza de privilégios de parlamentar. Há também um processo contra o (deputado) pastor Marco Feliciano (PSC-SP), por ter divulgado em jornais calúnias contra mim, e contra a deputada Erika Kokay (PT-DF). Há também um grupo nazifascista, que estimula o racismo geográfico e que faz eventuais ameaças.

A bancada conservadora eleita para o Congresso Nacional nessa última eleição é a maior desde 1964. Você acha que isso, de alguma forma, reflete o pensamento da sociedade brasileira?

Na verdade, ter uma grande bancada conservadora não significa necessariamente um reflexo da sociedade, porque sabemos que muitos deles estão presentes no Congresso porque foram financiados por empresas de grande porte e vão defender apenas interesses corporativos e não levar em consideração as demandas da população. Além disso, tem aqueles que só foram eleitos devido ao quociente eleitoral. Ao contrário disso, acho que nossa sociedade vem dando passos a favor da diversidade e isso é muito importante. Na semana passada, por exemplo, estive presente em um seminário na Universidade Federal do Rio de Janeiro que tratava sobre diversidade de raça, gênero e identidade, na qual havia um programa para conscientização de servidores públicos sobre o assunto. Isso é um avanço para sociedade.

Você citou dois assuntos que fazem parte da reforma política proposta pela presidente Dilma Rousseff: o financiamento empresarial de campanhas eleitorais e o quociente eleitoral. Ambos sofrerão mudanças se tópicos propostos forem aprovados. Qual sua opinião sobre a reforma?

Essa reforma é urgente e precisa ser discutida e votada, pois significa um aprofundamento da democracia brasileira e a chance de tornar ainda mais igualitários os processos eleitorais.

Como você vê as manifestações de pessoas pedindo intervenção militar? Seria um sintoma de insatisfação com a vitória de Dilma apenas?

Disseram que o Brasil estava dividido e isso não é verdade. Ele sempre esteve dividido entre a casa grande e a senzala. E o PT, mesmo com todos os erros, conseguiu dar ao Nordeste condições para se desenvolver e isso gerou revolta em muitas pessoas. Sobre os pedidos por intervenção militar, eu fiquei, acima de tudo, constrangido, pois foi uma confissão pública de burrice daquelas pessoas. Elas repetiam as mesmas coisas sobre as quais não tinham repertório suficiente, proliferando o racismo geográfico, o ódio aos nordestinos. O PSDB veio rechaçar a manifestação, mas demorou. Eles estavam aproveitando o apoio dessas pessoas, mas agora, pelo visto saiu do controle.

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