Borges e a delação premiada de Judas - segunda parte

iG Minas Gerais |

Intervenção sobre “A prisão de Cristo”, de Caravaggio (1602)
undefined

Judas Iscariotes, segundo a tradição, vendeu Cristo por 30 moedas de prata, matando-se em seguida. Pesquisando na internet, consegui transpor essa quantia para valores atuais, obtendo algo entre 20 e 50 mil reais. É pouco, se considerarmos a importância de Cristo na História, embora na época, e para os romanos, possivelmente não passasse de um subversivo menor. Esse acontecimento, crucial na história do cristianismo, gerou, no entanto, mais dúvidas do que certezas. Quando reli o conto de Borges, “Tres versiones de Judas”, pensei em associá-lo à nossa famigerada delação premiada. Mas, se tangenciei o tema na primeira crônica, decidi não voltar ao assunto, aproveitando apenas o mote. ALTERNATIVAS Por que Judas traiu Cristo, se era o mais próximo de seus discípulos, citado 20 vezes nos Evangelhos, número apenas inferior ao de Pedro? Além disso, Judas significa, em hebraico, “abençoado” ou “louvado”. Ainda mais: por que se tornou um dos 12 apóstolos, isto é, um dos 12 homens eleitos para difundir a doutrina cristã, se estava condenado a ser um delator e, com isso, a se tornar o mais infame dos criminosos? Importa lembrar que, onisciente, Cristo conheceria desde sempre a traição. Ou ele o escolheu para isto mesmo? Segundo algumas fontes, Judas se enforcou. Segundo outras, suicidou-se, sem que se especifique a maneira. Ainda em outras, nem uma nem outra: ele morreu na cruz no lugar do Mestre, enganando os romanos. E, finalmente, a mais fascinante: a de que pretendeu, com seu ato, forçar Cristo a se revelar Deus e com isso, revoltar o povo contra a tirania romana. Iscariotes derivaria de “sicário”, ramificação dos zelotes, grupo que lutava pela liberdade da pátria oprimida. Só para lembrar: no cinema e na música existem muitas versões, que vão desde Raul Seixas a Lady Gaga, que pensa em amar Jesus mas decide amar Judas. LABIRINTOS Quando Borges elege um alter ego, não o faz por acaso ou por mera diversão. Está sempre atento à própria liberdade de criação. É o que faz com Nils Runeberg, o presumido autor de “Tres versiones de Judas”. Holandês, membro da União Evangélica Nacional, Runeberg é profundamente religioso. Longe dele a ideia de conspurcar a fé. Se discute o papel de Judas no centro da crucificação é pelas dúvidas que o dilaceram. Segundo Borges (que nunca é confiável em suas intermináveis citações), De Quincey teria escrito em 1857: “No una cosa, todas las cosas que la tradición atribuye a Judas Iscariote son falsas”. Segundo De Quincey, Judas entregou Jesus para forçá-lo a revelar sua divindade e a liderar uma vasta rebelião contra o jugo de Roma. Até aí nada demais e muito se especulou sobre isso, como escrevi antes. Acontece que, a partir daí, Runeberg começa a esmiuçar a traição. VARIANTES Sua primeira hipótese é questionar a improvável gratuidade do ato de Judas. Para identificar um mestre que pregava diariamente na sinagoga, que fazia milagres em público diante de milhares de pessoas, não era necessária a traição de um apóstolo. Isso, no entanto, ocorreu. Para ele, seria intolerável admitir um erro das Escrituras. Intolerável também admitir um fato casual no mais precioso – segundo Runeberg – acontecimento da história do mundo. Assim, a traição não foi casual, mas um fato pré-fixado e que ocupa misterioso lugar na economia da redenção. Acrescenta Runeberg: “O Verbo, quando se fez carne, passou da ubiquidade ao espaço, da eternidade à história, da felicidade sem limites à mutação e à morte; para corresponder a tal sacrifício, era necessário que um homem, representando todos os homens, fizesse um sacrifício equivalente. Judas foi esse homem, único entre os apóstolos a intuir a secreta divindade e o terrível objetivo de Jesus”. O SACRIFÍCIO SUPREMO Assim, entre todos os 12 apóstolos, só Judas compreendeu que o Filho era Deus, e se dispusera a se tornar homem. O Verbo se rebaixava a mortal. Para equiparar-se a Ele, Judas decidiu rebaixar-se a delator (o pior crime que a infâmia suporta, lembra Borges) e a ser “hóspede do fogo que não se apaga”. De alguma forma, Judas foi o reflexo humano de Jesus, como as formas da Terra correspondem às formas do Céu. Daí as 30 moedas e o beijo da traição. Daí a morte voluntária (o suicídio) para merecer ainda mais a reprovação suprema. Assim resolveu Runeberg, em princípio, o enigma de Judas. UM DEUS NA TERRA Teólogos de todas as religiões o refutaram. Centenas de vozes esclarecidas se ergueram para contestá-lo. Sob o peso das críticas, Runeberg modificou sua doutrina. Abandonou aos adversários o campo teológico e propôs razões morais. Admitiu que Jesus (que dispunha de todos os recursos que a onipotência podia oferecer) não precisaria rebaixar-se a homem para redimir os homens. Argumentou, contra os que diziam que nada sabemos de Judas, que o simples fato de ser escolhido como um dos apóstolos já lhe outorgava papel relevante. Então propôs um objetivo contrário. Um asceta, para maior glória de Deus, rebaixa e mortifica a carne. Judas rebaixou e mortificou o espírito. “Premeditou” – argumenta Runeberg – “com terrível lucidez suas culpas. Escolheu aquelas que nenhuma virtude redime: o abuso de confiança e a delação. Assim buscou o Inferno, porque a felicidade do Senhor lhe bastava”. Mas Borges ainda não terminou com Judas, Runeberg e Cristo. Quando dá início a um de seus terríveis paradoxos, o gênio cego vai até o fim. E é nesse fim, como num pântano amaldiçoado, que nos atolaremos na próxima semana.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave