Voltando pra casa

iG Minas Gerais |

Um dia o mundo te chama. Pegar a estrada é tão mágico que seduz. E então o caminho se estende, convidativo e atraente, estimulando a caminhada. Há de ter um quê de aventureiro, mesclado com curiosidade e muito de desapego. Força maior, que, inquietante, propõe o desconhecido e o imponderável. A medida das coisas é aqui impraticável, despreza-se a lógica, abrindo mão da segurança. Afinal, mudar é preciso! Evitar despedidas, saindo envolto na penumbra e no silêncio. Tudo aqui é conhecido, vivido, rotineiro, exala uma mesmice que já não estimula desejos nem sonhos. Quem quer mudar o mundo, têm antes que conhecê-lo, vivenciá-lo, experimentando do mel e do fel. Há de ter fé e perseverança tão grandes quanto à capacidade de sonhar. Poucos sairão da zona de conforto, de habitar o cotidiano seguro, de seguir as normas que regem a aquilo que é comum. Arriscar é contrariar o senso comum, e mais ainda, desprezar todos os avisos e advertências que o instinto de sobrevivência lança sobre nós. E ainda assim, seguir viagem ao desconhecido, sem calcular os riscos, entendendo que frustração, traição e erros serão companheiros das más experiências, assim como a conquista, o entusiasmo e a recompensa advirão nos bons momentos. Rodei o mundo enquanto ele rodava seu astro- rei. Tempo e espaço se materializaram em uma travessia feita de inesperadas e surpreendentes façanhas. Encontrei outros que, assim como eu, caminhavam, e a maioria que, em nome da segurança, se fixava ao seu território natal. Ensinei e aprendi. Fui surpreendido pelo inesperado e reconheci coisas que são universais que tendem a se repetir qualquer que seja o lugar que conheça. Há uma origem única para todos nós, uma fraternidade ontológica, onde o que é bom e ruim habita nossa mente e alma, esse espaço onde inveja, ciúme, medos e inseguranças convivem com acolhimento, sensibilidade e generosidade. Onde estivermos, seremos humanamente um poço de conflitos e imperfeição. Rodei tanto esse mundo que, do outro lado, encontrei o caminho de volta. Ainda com a sensação de ser estrangeiro na terra natal, volto a Minas e a BH. Tento adaptar-me ao cotidiano, ainda nauseado por tanto giro. Reencontro estigmas, encanto-me com velhas emoções. Tenho uma fortuna de vivências a compartilhar, um oceano de experiências para ofertar. Muitas coisas mudaram, outras persistem em não mudar. Essa é a Minas Gerais, essa é a BH. Estou de volta para a psiquiatria, para um consultório em que cada paciente é um mundo único e singular. Ouvir pessoas, tentar entendê-las, mergulhar em seus labirintos de corpo e alma, ajudar a decifrar tantos mistérios, olhando bem as montanhas. Será que daqui, de tão longe, é possível semear um novo tempo?

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