Arte voltada para a arquitetura

“Paulo Werneck – Muralista Brasileiro” leva imagens de painéis, ilustrações e fotografias do artista ao Museu de Arte da Pampulha

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Do papel à parede. Paulo posa ao lado do mural finalizado um ano depois
Acervo Projeto Paulo Werneck
Do papel à parede. Paulo posa ao lado do mural finalizado um ano depois

Morto em 1987,o muralista Paulo Werneck deixou um conjunto de obras ligadas, sobretudo, à arquitetura de espaços públicos. Os trabalhos, principalmente aqueles produzidos durante as décadas de 1930 e 1940, tornam-se parte essencial do desenvolvimento da arte moderna brasileira. Duas de suas criações mais importantes estão, inclusive, em Belo Horizonte: os painéis da igreja de São Francisco de Assis e da Casa Kubitschek, ambos localizados na região da Pampulha e concebidos em 1943.

O todo de sua obra, no entanto, é mais plurivalente. Abrange também desenhos, imagens de painéis, ilustrações que, juntamente com dois filmes, fotografias e documentos, integram a exposição “Paulo Werneck – Muralista Brasileiro”, em cartaz a partir de hoje, no Museu de Arte da Pampulha (MAP).

A mostra é fruto do empenho da família que trabalha na recuperação e catalogação de todo o acervo de Werneck espalhado pelo Brasil, desde 2006. Dois anos depois, o resultado pôde ser visto na primeira edição da exposição, realizada no Rio de Janeiro, local onde Werneck nasceu. Após a estreia, passou por São Paulo, Brasília e Recife. “A cada montagem descobrimos informações novas e a curadoria fica mais clara e apurada. È por isso que a de Belo Horizonte é mais completa”, afirma a curadora e neta do artista, Claudia Saldanha. Ao todo, serão exibidas 150 obras.

Para Claudia, o avô se diferenciou de outros artistas que criaram murais, como Lygia Clark e Oscar Niemeyer (de quem era amigo de infância), por ter se dedicado exclusivamente a isso. Inevitavelmente, sua técnica desenvolveu-se mais e chegou a antecipar tendências no Brasil. “Você pode pegar qualquer livro e ver que o abstracionismo chegou ao país por volta de 1948. Em 1942, no entanto, o Paulo já produzia obras dentro desse estilo, voltadas para arquitetura, estando ele, assim, à frente das artes plásticas”, afirma.

Artista plástico e um dos principais nomes em atividade na área de azulejaria atualmente no Brasil, Alexandre Mancini conta que seu primeiro contato com o trabalho de Werneck foi durante uma visita à igreja localizada na Pampulha. “A obra sempre me encantou por unir simplicidade e, ao mesmo tempo, funcionalidade”, analisa o artista, que destaca o painel no Banco Boa Vista, no Rio de Janeiro, como outro trabalho fundamental de Werneck, pela “capacidade de expressão plástica em integração com a arquitetura que, infelizmente, não se vê mais tão facilmente”.

Claudia, por sua vez, acredita que a obra do avô na igreja mineira seja a mais importante do acervo de Werneck. “Porque está localizada em um espaço importante, pela qualidade, pelo impacto que causa na paisagem e pelo fácil acesso das pessoas a ela”, justifica. Essas razões têm grande peso para a curadora por expressar um paradigma importante na trajetória do avô. “Ele sempre teve a preocupação de produzir obras que atingissem toda a população, democratizando o acesso às artes”.

Essa característica e aspectos técnicos do artista o fazem fulgurar, para Mancini, ao lado de Athos Bulcão e Burle Marx, como o artista brasileiro que melhor compreendeu a essência da arte integrada à arquitetura. “Suas obras impõem uma inevitável relação com os edifícios nos quais estão instaladas e propõem um intenso diálogo com os cidadãos. Além disso, Werneck conseguiu a grande proeza de criar obras de arte abstratas em edifícios típicos da arquitetura moderna brasileira, gerando, assim, uma nova relação entre as matérias”, diz.

A mostra. Um adendo importante é que a exposição traz desenhos de seus painéis e não as obras finalizadas. “Muitas pessoas chegam achando que vão encontrar os trabalhos na parede. A exposição é de desenhos que se tornariam painéis de até dez metros. Algo fascinante se você parar pra pensar”, diz Claudia.

Para completar a imersão na vida do artista homenageado, fazem parte da exposição dois documentários, “Paulo Werneck – Arte e Raiz”, dirigido por Paula Saldanha, e o vídeo “P.W. Pincéis e Painéis”, de Vivian Ostrovsky.

Todo o material foi distribuído pelo Museu de Arte da Pampulha com muito cuidado e supervisão de Ricardo Ventura, responsável pelo projeto museográfico. “Tentamos aproveitar a luz de forma a favorecer os quadros menores. Mas nosso grande desafio foi justamente o de não brigar com a vista do museu, mesmo porque sairíamos perdendo”, brinca a curadora.

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