Pesquisa mineira reduz a zero transmissão de HIV no parto

Grupo da UFMG faz acompanhamento das mães durante toda a gravidez

iG Minas Gerais | Da redação |

Dedicação. Coordenador do projeto, professor Jorge Andrade Pinto trabalha com a pesquisa há dez anos
Foca Lisboa / UFMG
Dedicação. Coordenador do projeto, professor Jorge Andrade Pinto trabalha com a pesquisa há dez anos

Quando decidem ser mães, as portadoras de Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) têm uma preocupação a mais do que a maioria das mulheres: garantir que o seu bebê não seja contaminado com o vírus na chamada “transmissão vertical” – que ocorre durante a gravidez, o parto ou a amamentação. Em Minas Gerais, as futuras mães podem engravidar com a convicção de que a criança não será contaminada.  

Essa certeza tem como base a experiência de 25 anos do grupo de pesquisa da Faculdade de Medicina da UFMG que acompanha mais de 540 pacientes soropositivos. “Estamos na terceira geração do HIV. Algumas das meninas que chegaram ao ambulatório pediátrico já tiveram filhos, felizmente com zero índice de transmissão”, informa o pediatra e coordenador do projeto, professor Jorge Andrade Pinto.

Jorge Pinto explica que a Aids é hoje uma doença crônica, como diabetes e nefropatias, e pondera que uma série de dificuldades já foram ultrapassadas. “Sabemos como bloquear a transmissão vertical, como tratar essas crianças precocemente, quais drogas utilizar, como manuseá-las do ponto de vista nutricional e de imunização”, avalia.

Embora o trabalho tenha obtido êxito completo com as jovens que participam seguidamente do estudo, a taxa de transmissão vertical registrada pelo grupo ainda é de 2%, devido aos casos de mulheres identificadas no fim da gestação, e até em trabalho de parto, que não passaram pelo pré-natal no Sistema Único de Saúde. “São usuárias de droga e populações de rua. É muito importante melhorar o acesso dessa população ao serviço”, adverte o pesquisador.

Para Jorge Pinto, o manejo adequado, que reduziu a taxa de transmissão, se configura como uma das medidas mais efetivas do processo. Segundo ele, na ausência de intervenção, a transmissão vertical gira em torno de 25%. “Um dos artigos que publicamos há alguns anos mostra que a tendência temporal de transmissão caiu daquele índice para 2%, em cerca de oito a dez anos, e permanece baixa na última década”, relembra.

Como é feito o bloqueio. O bloqueio da transmissão vertical da infecção é composto basicamente por três medidas: terapia antirretroviral para a mãe desde o primeiro trimestre de gestação, com a finalidade de assegurar que ela chegue ao parto com carga viral baixa ou negativa; manejo da via de parto, optando-se pelo normal apenas se a viremia plasmática estiver indetectável; e oferecimento de fórmula láctea artificial para o bebê, para evitar a ingestão do leite materno.

“Essas três medidas combinadas resultam na potencial erradicação da transmissão vertical. E é isso o que estamos vendo: nosso número de pacientes novos infectados caiu drasticamente”, explica o professor.

Apesar do preconceito, a experiência com o HIV e com a Aids trouxe ganhos sociais nunca antes experimentados, afirma Jorge Pinto. Como exemplo, ele cita o forte lobby empreendido pelos portadores, que inspirou a estruturação de movimentos reivindicatórios relacionados a outras doenças, como as hepatites.

Origem UFMG. O trabalho do grupo começou de forma assistencial em 1989, mas ampliou a atuação para ginecologia e obstetrícia, tornando-se um dos fortes aliados do Ministério da Saúde e da OMS.

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