Amizade e política influenciaram trajeto do artista

"Paulo Werneck – Muralista Brasileiro" leva imagens de painéis, ilustrações e fotografias do artista ao Museu de Arte da Pampulha

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |



Niemeyer, Joaquim Cardoso e Paulo Werneck na Pampulha, em 1944
Acervo Projeto Paulo Werneck
Niemeyer, Joaquim Cardoso e Paulo Werneck na Pampulha, em 1944

Ao falar sobre Paulo Werneck, por telefone, a curadora da exposição “Paulo Werneck – Muralista Brasileiro” – em cartaz no Museu da Pampulha – e neta do artista, Claudia Saldanha, só se referiu a ele pelo nome completo. Talvez seja um sinal de respeito, talvez um afastamento proposital com o objetivo de não ofuscar o talento artístico do parente famoso com opiniões intimistas demais. Independentemente do motivo, ela segue um caminho sóbrio ao declarar suas opiniões sobre a relação, as amizades e o posicionamento político de seu avô.

“Sempre fomos muito próximos. Mesmo porque minha mãe é filha única dele e isso fez com que eles tivessem uma relação simbiótica, que contribuiu para que ela também se tornasse uma artista. Éramos muito unidos, e Paulo Werneck sempre almoçava em nossa casa nos fins de semana. Era quando nos ensinava (a ela e aos irmãos) coisas importantes sobre arte, como misturar tintas. Ele era do tipo que fabricava suas próprias ferramentas”, relata Claudia.

Ainda quando criança, Werneck conheceu aqueles que se tornariam não apenas seus amigos de infância do bairro Catete, mas também arquitetos famosos: Marcelo Roberto e Oscar Niemeyer. “Os três eram colegas de colégio e foram responsáveis por escrever parte da história da arquitetura brasileira”, diz Claudia.

Profissionalmente, Paulo Werneck começou a carreira como cartógrafo e depois foi contratado como projetista pelo amigo Marcelo e por seu irmão Milton Roberto, donos do MM Roberto, um dos escritórios de arquitetura mais importantes do país, em 1942. “Ele era o responsável por desenhar todos os projetos, que naquela época eram feitos à mão”, conta a curadora.

Paralelamente ao trabalho, ele desenvolvia obras para projetos arquitetônicos, tanto para o poder público quanto para clientes privados. Este fato foi, inclusive, um dos maiores obstáculos para catalogação do acervo do artista. “Com a exposição percorrendo o Brasil, muitas pessoas tem nos procurado para falar das obras de Paulo que possuem em suas casas. Ele produziu muito para residências privadas, afinal, tinha que ganhar dinheiro”, diz Claudia, que completa: “Por isso, ele chegou a fazer obras para alguns ministérios na época da ditadura, mas ele sempre escondeu isso de mim e dos meus irmãos. Guardava isso na última gaveta, pois morria de vergonha”, conta a neta do artista.

Embora tenha feito alguns painéis para os governos ditatoriais, nunca houve nenhuma suspeita de aproximação de Paulo Werneck com os militares, pelo contrário. Ele fez parte do Partido Comunista Brasileiro e disponibilizava o abrigo subterrâneo de seu apartamento no bairro Laranjeiras para reuniões. Lá se encontrava com Cândido Portinari, Carlos Scliar, Israel Pedrosa e Niemeyer. “Ele não era um militante ferrenho, sempre quis na verdade que todas as pessoas usufruissem de direitos igualitários. Ele sempre transportava dinheiro para famílias de vítimas da ditadura, pois viajava muito pelo Brasil a trabalho”, diz Claudia.

Seu posicionamento político não passou desapercebido em seus trabalhos. Para Claudia, a influência é notada na variação de estilo. “Ele era um desenhista figurativista, algo muito raro na época. Com certeza, foi influenciado pela ideologia socialista, que não prezava abstrações”, diz.

  • Agenda
  • O quê. Exposição “Paulo Werneck – Muralista Brasileiro”
  • Onde. Museu de Arte da Pampulha (av. Otacílio Negrão de Lima, 16.585, Pampulha).
  • Quando. Quanto. De hoje até 1º de março Entrada franca
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