Baila comigo

Requebra, BH: Boom de dança pelas ruas da capital é convite para novas vivências urbanas

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

Dupla do Obscena dança na estação de metrô do Horto
LEO FONTES / O TEMPO
Dupla do Obscena dança na estação de metrô do Horto

Numa quinta-feira de céu azul, um grupo se forma ao lado do Galpão Cine Horto. Oito duplas se constituem e um a cada dois tem vendas nos olhos. Só sei disso por espiar por baixo da faixa amarela que cobria a minha visão, logo antes de começarmos a caminhar em direção à estação de metrô do Horto. Minutos antes, a instrução tinha sido dada: “a dança é livre. Vale pular, caminhar, rebolar, se arrastar: fique à vontade”. Na passarela sobre a avenida dos Andradas, meu par acatou minha sugestão silenciosa de passos de quadrilha. No vagão, alguém puxou um rock improvisado e uma festa não programada aconteceu. A ação, promovida pelo agrupamento artístico e de pesquisa cênica Obscena, foi batizada de “Conduza-me”. Alguns dias antes, um grupo caracterizado com o figurino das primeiras décadas do século passado havia invadido os jardins do Museu Abílio Barreto para uma tarde de piquenique, improvisos, ensaios e confraternização dançante. O pessoal forma o coletivo Be Hoppers e a coreografia era de lindy hop, um dos inúmeros ritmos que têm enchido as ruas da capital mineira de ginga. Belo Horizonte colhe os louros dos movimentos que bradam pela ocupação do espaço público e a dança, como era de se esperar, não quis perder o compasso. Há dez anos, o Quarteirão do Soul segue deslizando pela região central ao som de funk e soul music e, por algum tempo, as vastas cabeleiras black power dominaram a cena por ali. Hoje o look e o groove setentista dividem asfalto e calçadas com batalhas de passinho, duelos de street dance, apresentações de vogue (espécie de dança inspirada em poses da revista), sequências de lindy, intervenções de dança livre e até com festivais inteiramente dedicados às danças urbanas. “Acho que BH acordou para a rua há uns três anos. O mineiro hoje pula carnaval na rua, vai à praça, ao parque, anda a pé: as pessoas despertaram para o fato de que a rua precisa ser ocupada”, comenta Jacqueline de Castro, que, em parceria com o produtor Wagner Tameirão, promoveu em 2014 a quinta edição da Horizontes Urbanos – Mostra Internacional de Dança em Espaço Urbano. Para ela, desde a estreia da mostra, em 2007, a receptividade e o interesse do público só aumentam. A diferença foi notada, segundo a produtora, no duelo “all-styles” – aberto a todo tipo de estilos e de participantes – que encerrou a programação no Mercado das Borboletas. “Foi maravilhoso e eu ficava pensando de onde saíram aquelas pessoas alegres, vivas, de tamanho viço físico. Nem tínhamos a ideia de ser uma festa, mas desde a hora que as pessoas chegaram, elas transformaram aquilo”, se empolga Jacqueline, acrescentando que a dança contemporânea tem se aproveitado dessa efervescência criativa que paira na cidade. “Passamos por uma época da dança muito voltada ao pensamento, ao conceito dos movimentos. Felizmente, agora, a dança de rua está começando a se infiltrar nas demais e a devolver um quê de espontaneidade a elas”, diz. Cidadãos dançantes Em consonância com o Obscena, existe nos idealizadores desse tipo de movimento o desejo de provocar fissuras no cotidiano da metrópole a partir da arte. A ideia é chamar atenção para a arquitetura por outras perspectivas, tirar a cidade e os cidadãos dos eixos costumeiros. “O que buscamos é um diálogo com o ambiente e um retorno da admiração”, comenta Jacqueline, ao que a artista Lissandra Guimarães, do Obscena, complementa sobre a vontade do grupo de “criar encontros, de pensar a cidade como outro lugar. De criar experiências poéticas na vida da cidade. De promover uma escuta ampla e interna, de conduzir e ser conduzido, de dançar ao som dos sons”. A artista e pesquisadora de performance Marcelle Louzada, que também participou de “Conduza-me”, vai além e defende a prática da dança no espaço urbano como uma forma de micropolítica – além de “oportunidade de experimentação sem compromisso com o espetacular”. Ela conta como acompanhou de perto o processo de um trabalho de dança na rua com adolescentes de periferia e como pode notar a “transformação do indivíduo em protagonista de sua própria história a partir daquele contato com o corpo. A rua possibilita novos caminhos de construção de cidadania. De repente, imitar uma águia ou fazer uma festa dentro do metrô, com vendas nos olhos, é uma forma muito potente de experienciar a rua. A gente estava de olhos fechados, mas com todos os poros abertos. Foi incrível”, conta. Maria Sílvia Cambraia, Little Bia ou Bia Big Mama, como é conhecida pelos lindy hoppers, não poupa elogios à alegria e ao alto astral característicos do ritmo de origem afro-americana, mas faz coro a Marcelle e Jaqueline ao ressaltar que a principal característica do lindy é o espírito de comunidade e as novas relações que se criam entre pessoas e espaços. “O lindy é uma comunidade que se apoia. Ele é extremamente inclusivo e não julga se você dança bem ou mal. Quer dançar espalhafatosamente? A gente adora. Quer dançar de um jeito mais contido? Achamos lindo também. Nem precisa saber dançar, só precisa curtir a música e se divertir. Lindy hop pra mim não é só uma dança, é um estilo de vida. Pra mim é ‘lar doce lar’.” Dança de rua no palco Com estreia marcada para a noite deste sábado (15), no CCBB (Praça da Liberdade, 450, 4341-9400. Às 19h. R$ 10, inteira), o espetáculo “Quando Efé” é o quarto em que a Cia. Fusion de Danças Urbanas transpõe para os palcos os elementos da rua.

Movidos pelo lema “danças urbanas para além dos muros”, o grupo se sente confortável para apresentar sua mistura em qualquer espaço. “Do mesmo jeito que a gente faz intervenção no Duelo de MC’s, no Viaduto Santa Tereza, na sexta, a gente está no Oi Futuro no sábado”, comenta Leandro Belilo, diretor da montagem e um dos sete dançarinos que compõem o híbrido de hip hop e tambor mineiro.

Talvez a origem do grupo explique tamanha versatilidade: a companhia nasceu da paixão de seis amigos pela dança. Eles ainda não eram maiores de idade e aproveitavam as horas vagas nas atividades de office-boy, padeiro e atendente de farmácia para ensaiar passos pelas ruas do Pompeia. “A dança nasceu como hobbie, mas hoje a gente a respira, pensa e vive. Ela mudou as nossas vidas, como a dança sempre transforma”.

VALE O QUE QUISER

Não é de hoje que Belo Horizonte integra o circuito oficial de dança contemporânea no Brasil. Nomes como Dudude Herrmann, Grupo Corpo, Cia. Primeiro Ato, Tuca Pinheiro e Klauss Vianna, além de festivais como o FID – Fórum Internacional de Dança nos colocaram em evidência no circuito institucionalizado. Talvez por isso tenha sido natural a chegada do momento da apropriação popular de várias vertentes da arte do movimento. Basta que exista a curiosidade e o desejo de romper com a inércia para que qualquer pessoa entre para o corpo de baile. Pelo menos essa foi a motivação que levou esta repórter a praticar, no ano passado, alguns meses de aulas regulares e a participar de vários dos encontros mensais do “contato improvisação” (modalidade de dança contemporânea) oferecidos num galpão do bairro Santa Efigênia (saiba mais no quadro ao lado). Depois de passar pelo jazz, pelo balé e pelas baladas com muito constrangimento e sem nenhuma malemolência, foi interessante descobrir alguma dança que me incluísse. Isso foi possível, no contato, graças à proposta de liberdade de expressão corporal que o estilo, importado dos Estados Unidos, tem como base. O requisito é que dois ou mais corpos estejam com alguma parte do corpo em contato – simples assim. Outro estilo, também de origem norte-americana, tem ganhado destaque e adeptos na cidade a cada dia pela proposta experimental. Surgido nos presídios e mais tarde apropriados pelos guetos gays de Nova York, na década de 1980, o “vogue” baseia-se na imitação e na sequência de poses simétricas e expressões artificiais estampadas pelas modelos na revista de moda que inspira o nome da dança. Madonna, em 1990, popularizou a coreografia no videoclipe homônimo e hoje certamente fica no chinelo com os competidores que frequentam a Miss Dengue (a festa que abriga o duelo é aberta a qualquer participante e acontece uma vez por mês num espaço sempre divulgado pelo Facebook). “Acredito que as danças de rua trazem para a cidade a ideia de integração. Elas aceitam as pluralidades que o ‘urbano’ tem. Elas trazem à vista o que às vezes fica escondido”, comenta o biomédico e artista Brenno Pereira, que pratica contato e já marcou presença em vários dos pódios de duelo de vogue. Para quem caiu no palco “por acaso”, Brenno acabou descobrindo um talento. “Num dia em que acordei muito triste, com a autoestima baixa, fui ao duelo de vogue e resolvi duelar pra ver se melhorava. Acabei ficando em 3º lugar”, conta ele, que pelo figurino de meião e shorts curtos ganhou o apelido de Lu Patinadora. “Miss Dengue é a melhor festa de BH e vejo que a cada duelo aparecem novos rostos, personagens, figurinos, influências. Acredito que em pouco tempo teremos duelos de vogue épicos nesta capital”, diz Brenno, que já precisou esclarecer para uma amiga que o duelo não se tratava de uma briga em que as pessoas se atacavam munidas de revistas. Além de abertos, democráticos, contemporâneos e livres, o vogue e o contato têm em comum o idealizador: o diretor e coreógrafo Guilherme Morais. Como agitador cultural, ele é outro a defender a potência política da dança popular para o contexto da cidade. “É um tipo de apropriação do corpo que impõe uma posição muito clara: a busca por liberdade. No vogue pode tudo. Lá a gente grita e escancara tudo aquilo que as pessoas tentam esconder no cotidiano. Lá todo mundo pode ser livre. O contato passa por aí também”, conta o artista, que geralmente é o mestre de cerimônias da festa. Ele apresenta o runway – parte preliminar em que qualquer um pode aproveitar para desfilar o figurino montado – e, logo em seguida, convoca os competidores – levando o público ao êxtase com a narração dos apelidos e dos duelos. Vogue tupiniquim “O momento é de misturar. Essa tendência de coisas definidas em caixinhas é tendência batida”, garante a comunicadora e dançarina Maria Teresa Moreira, uma das pioneiras do vogue. Ela é uma das três que formam o Trio Lipstick – especialista em vogue, waacking e stiletto, modalidades mais femininas das danças urbanas –, e, como jurada técnica dos duelos de vogue, ressalta o caráter expressivo e subversivo da festa – onde ganha quem fizer mais “carão” para conquistar o público, o juiz soberano. “Sou apaixonada pela festa, pelo modo como ela é feita: tupiniquim, underground, na tora, do jeito que dá. É super legal ver a moçada abraçando isso, todo mundo superempolgado, se jogando no chão, batendo cabelo, com aquele clima de glamour, sedução e feminilidade”, aponta Maria Teresa. As inscrições para o duelo de vogue acontecem pela página no Facebook, mas quem decidir se arriscar em cima da hora pode entrar na disputa quando o DJ tocar a faixa “Não se reprima”.

DANCE TAMBÉM Contato Improvisação Modalidade de dança contemporânea que surgiu na década de 70, guiada pelos preceitos da escuta corporal entre os dançarinos. Toda segunda sexta-feira do mês, o Espaço Cultural Ambiente (r. Grão Pará, 185, Santa Efigênia, 3241-2020. R$ 5) recebe uma jam.

Lindy Hop De origem afro-americana, o estilo jazzístico é dançado ao som de swing e rockabilly. Movimentada e livre, a dança tem como característica o alto astral. O Be Hoppers promove eventos regulares, divulgados pela página no facebook (facebook.com/lindyhopBH). Obscena Agrupamento O coletivo de pesquisa cênica promove, eventualmente, intervenções de dança e outras performances pela cidade. Algumas delas são batizadas como “Dançar é uma Revolução”, “Festa no Metrô” e “Conduza-me”. Vogue De origem dos guetos gays de Nova York, o estilo de dança imita, ao som de house music, as poses das modelos da revista de mesmo nome. O Duelo de Vogue acontece uma vez por mês e as datas são divulgadas na página da Miss Dengue, festa que abriga as batalhas. A próxima será no sábado (22), às 22h, na Gruta (r. Pitangui, 3.613, Horto. R$ 15).  

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