Razão e instinto

iG Minas Gerais | Priscila Brito |

“Belle”: a Cia. Deborah Colker “dança” o livro “A Bela da Tarde”, de 1928
Flavio Colker
“Belle”: a Cia. Deborah Colker “dança” o livro “A Bela da Tarde”, de 1928
Séverine poderia ser o nome alternativo de “Belle”, espetáculo que a Cia. Deborah Colker mostra no Palácio das Artes nos próximos sábado (22) e domingo (23). A nova coreografia é um mergulho no mundo interno da protagonista de “A Bela da Tarde”, livro de 1928 do franco-argentino Joseph Kassel e adaptado para o cinema em 1967 pelo espanhol Luis Buñuel, com Catherine Deneuve.    Na história da mulher que diante da dificuldade de se realizar sexualmente com o marido, apesar do amor que sente por ele, decide viver uma rotina dupla e passa a trabalhar em um bordel durante a tarde, importam menos as contradições do casamento expostas no livro ou a crítica ao moralismo acentuada pelo filme. Em determinado ponto da elaboração da dramaturgia do espetáculo, Deborah notou que a viagem empreendida por Séverine pelo seu próprio corpo, mente e coração tinha mais relevo que a narrativa original. “Essa mulher tem tudo: o marido, o mundo, uma condição social, amor. Mas falta alguma coisa a ela – um buraco profundo que precisa ser preenchido e a única saída pra ela é ter coragem de atravessar para outro mundo. O diálogo estabelece um embate entre razão e instinto, amor e carne, sexo e alma”, explica a coreógrafa, que usou a dualidade da personagem para orientar a concepção do espetáculo.     Duplo   São dois atos, divididos entre casa e bordel – com cenografia de Gringo Cardia e figurinos de Samuel Cirnansck, e duas Séverines, interpretadas por duas bailarinas, traço que Deborah considera ser sua grande assinatura na adaptação. “Para mim foi necessário encarnar esse duplo em outra bailarina e que uma fosse exatamente o oposto da outra. Uma é alta, controlada, fria, sistemática. A outra é baixa, vulcânica, intensa, um animal”, descreve. A trilha sonora, dominada por Miles Davis, Velvet Underground e composições eletrônicas de Berna Ceppas, também trabalha contrastes entre duplos, como “a delicadeza e a violência, entre o ruído e o silêncio”.   O erotismo que ronda a história – e que foi taxado de pornografia no início do século passado – foi conservado na versão coreográfica. Acompanhados por figurino transparente e provocante, sapatos de salto altíssimos, que exigiram muita habilidade das bailarinas, tomam o lugar das sapatilhas no segundo ato. Movimentos da dança aludem a situações de prazer e ao ato sexual – o espetáculo tem classificação de 14 anos. Deborah defende que o assunto não poderia passar em branco, mesmo reconhecendo que ainda é um tabu. O caminho escolhido, segundo ela, foi tratar o sexo sem vulgaridade ou estereótipos. “Acho importante ‘Belle’ nos dias de hoje, por trazer essa discussão desta mulher, do casamento e da sexualidade”.   Segunda adaptação literária da companhia (a primeira foi “Tatyana”, de Alexander Púshkin, em 2011), “Belle” não deve ser a última incursão do grupo por aquilo que sua fundadora chama de balé narrativo. Mesmo sem tempo para pensar na próxima montagem, Deborah antecipa: “Há vários clássicos da literatura brasileira, maravilhosos, que estão na minha mira”.   “Belle” Com Cia Deborah Colker Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, centro, 3236-7400) Dias 22 (sábado), às 21h, e 23 (domingo), às 19h. R$ 90 (plateia 1, inteira), R$ 90 (plateia 2, inteira, filas AA a KK), R$ 50 (preço único, plateia 2 filas LL a NN e plateia superior)

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